“Para quem tem uma boa posição social, falar de comida é coisa baixa. É compreensível: eles já comeram.” – Bertolt Brecht Uma sociedade que se quer justa, democrática e defensora dos direitos dos seus cidadãos, precisa de uma Saúde digna, preparada para atender todas as pessoas em caso de necessidade, garantindo o melhor atendimento possível com os recursos disponíveis, não deixando ninguém de parte, nem mesmo as pessoas com menos possibilidades, com menos formação e menos “conhecimentos”. Todos temos o mesmo direito a ser bem assistidos na doença e merecemos o mesmo nível de atendimento e de condições que a restante população portuguesa. Ninguém pode ser prejudicado no acesso à Saúde, nem na sua qualidade, por ter nascido, ou escolhido viver, em determinada região. Não existe Democracia sem Saúde, sem Saúde não pode existir uma boa economia e sem ela não se pode falar em “liberdade”. Imaginar prosperidade e justiça social com uma Saúde fraca, no meio da doença e da necessidade, é, no mínimo, um delírio com consequências imprevisíveis e gravosas para a nossa população e para o nosso desenvolvimento enquanto sociedade moderna. Todos sabemos que a Saúde é muito cara mas desinvestir na Saúde sai muito mais caro, não só em termos sociais, com os dramas individuais e familiares com que todos nós, em algum momento das nossas vidas, nos deparamos, contactamos ou conhecemos, mas também para o próprio Estado, pois é muito mais caro tratar a doença do que promover e investir na Saúde. Então porque tem sido a Saúde tão desconsiderada e alvo de uma constante desinformação e reles propaganda? A crua resposta: por ignorância e servilismo de uns, irresponsabilidade de outros e por falta de ética profissional e moralidade de alguns. Estes, muitos deles com boa posição social, visam apenas os seus interesses imediatos e preferem não se lembrar daqueles que, menos afortunados e abonados, em caso de necessidade, têm de se sujeitar ao que existe, se existir. Em ano de Mundial de Futebol, no Brasil, a população exige o chamado “padrão-FIFA” para a Saúde, a Educação e a Segurança. No caso da Madeira, o nosso “padrão-FIFA” é, em termos de Saúde, o que existe em Portugal Continental e também nos Açores. Os Açores têm 3 hospitais novos e em 2010 existia em Portugal um programa para a construção de 12 novos hospitais até 2013, o que daria um custo médio de pouco mais de 108 milhões de euros por cada Hospital construído. Os grandes especialistas nacionais na construção de novos hospitais defendem que um hospital novo que diminua os custos operacionais em 15% acaba por se pagar por si. Ao se proceder a remendos e acrecentos a uma estrutura obsoleta, torna-se impossível beneficiar dessa poupança operacional, sendo até expectável que ocorra o inverso: o aumento dos custos operacionais. Será que faz sentido investir em tecnologia e formação de profissionais de saúde e não fazer um investimento proporcional em novas estruturas? O investimento previsto para construção do novo hospital em Santa Rita era de 125 milhões de euros e este deveria estar concluído em 2014. No projecto abandonado de Santa Rita foram gastos quase 5 milhões de euros e nos 4 anos anteriores a 2013 gastaram-se 83 milhões de euros em obras e serviços. Não se sabe o custo de construção do anexo a edificar na margem esquerda do Ribeiro Seco, num terreno com um declive acentuadíssimo, nem quais os seus custos operacionais, no entanto foi essa a opção tomada. Oficialmente, é garantido publicamente que esta é a melhor solução e a mais barata mas desconhecem-se valores… Esta é a grande obra que a Madeira e a sua população precisa, aquela que terá um impacto que ficará por várias décadas e poderá fazer toda a diferença para a saúde e vida das pessoas, semelhante aquele que teve o Hospital da Cruz de Carvalho quando foi construído. A maioria da população da Madeira, aqueles que têm de obrigatoriamente se tratar cá por incapacidade financeira de ir para fora e que não podem recorrer ao privado, deseja ter melhores condições do que aquelas que teve até agora, ao nível daquilo que o resto do país tem actualmente. O tempo encarregar-se-á de mostrar qual a opção correcta e os méritos e deméritos de quem tomou as decisões.
Duarte Nuno Dória Gestor