O que se passou na Câmara do Funchal não foi bonito, nem foi coerente. Na campanha, o pacto com os eleitores incluía a solidez governativa. Ainda que tímidos, porém, os sinais estavam lá: a glorificação da “independência”, a mudança como fim em si mesmo, a aliança virtuosa entre a virilidade dos partidos de protesto e a estabilidade do partido do arco de governação. O melhor de quatro ou cinco mundos, portanto. Não vou perorar sobre as intrigas, manipulações e queixas que alegadamente deram azo à ruptura. O ponto é um apelo ao realismo. Governo algum consegue ser o que a Mudança se propôs a ser. Ninguém gosta de fazer parte de um rebanho ou de sacrificar a sua individualidade. Os partidos não o fazem por gosto, mas por necessidade (tantas vezes perversa) de assegurar a ordem. Na Mudança, promoveu-se desde sempre um radicalismo pueril, onde se confundia o repúdio do estado de coisas com uma afirmação de dignidade. Um radicalismo que reduzia a função política à moralização da vida pública, à perseguição do vício, à purga dos transigentes na luta entre o Bem e o Mal – dois extremos sempre muito bem identificados e personificados. Esse populismo sentimental teve o seu apogeu no discurso da tomada de posse, onde o Presidente, com pouco mais de um terço dos votos, declarou vir implementar a “Primavera da Cidadania” numa cidade com 500 anos. Mas desafiar o poder requer muito conhecimento, pensamento e capacidade de acção. Um crítico honesto reconhece os limites da autoridade que contesta, e parte do pressuposto que as escolhas políticas são contingentes – que o Bem não é absoluto, e que a escolha pública se faz sempre em detrimento de alguém. A promoção de um ungido, livre de interesses e fraquezas humanas, é uma embriaguez que se paga caro no confronto com os factos. E os factos não são fáceis. A regra da vida é a interdependência. As excepções, os verdadeiramente independentes, são também rebeldes. Toda a decisão prejudica alguém. Nem sempre os mais leais são os melhores técnicos. A Madeira é pequena. Um projecto eleitoral não é um programa de governo. O poder está cheio de provações, e há sempre as próximas eleições. Depois do namoro de Primavera, eis-nos – suponho – no “Verão” da Cidadania. Onde todos que não o viram antes, verão que mudar é difícil. Que a mudança não se fez “desta” porque, em democracia, ela não se faz de “vez” nenhuma. Faz-se quotidianamente, com respeito pelas nossas fraquezas e pelas dos outros, com objectividade e coragem na defesa da lei e do mandato, no trabalho comezinho, esforçado e empatado do dia-a-dia. A herança da Mudança é a humildade de perceber que nada disto se basta com meras intenções ou messianismo, e que a vigilância dos cidadãos não deve ser selectiva ou interrompida. Por mais que custe aos idealistas, é preciso admitir que a boa governação exige unidade e disciplina, lealdade e compromisso prático com ideias comuns. Se as sensibilidades são diferentes, e o único objectivo é somar votos para vencer, mais valia não ter feito coligação. Continuava a não ser bonito. Mas pelo menos teria sido coerente.
Pedro Fontes Advogado