A velocidade a que acontecem as coisas por estes dias na Câmara do Funchal obriga-me a deitar fora parte do artigo que tinha preparado. Por isso sigo uma linha mais genérica e assumidamente menos objectiva. Independentemente do final que todo este processo possa vir a ter, há vários factos a ter em conta. Desses, permito-me sublinhar apenas três, mesmo sabendo que nestes casos concorrem várias leituras, que todos os envolvidos terão a sua razão e que nem tudo o que aconteceu terá sido revelado. A verdade é que, assim, um projecto que se mostrava promissor corre o risco de deitar tudo a perder sem perceber que isso representa voltar a sufocar politicamente não apenas a cidade mas toda a Região. É pena. 1 . Como no futebol, assistimos esta semana ao que pode ser considerado um processo sumário na Câmara do Funchal. Em quatro dias, foi afastado um vereador que estava em funções havia apenas seis meses. Na segunda-feira houve uma reunião de balanço e redefinição de funções, que não foi aceite por todos. Na terça houve nova reunião e continuaram as divergências. Na quarta estava quase tudo decidido. Na quinta, o vereador foi formalmente afastado. Aprecio o pragmatismo e a capacidade de decisão, como têm os treinadores de futebol que decidem em segundos quem substitui quem, quem bate os livres, quem defende e quem ataca. Mas tenho dúvidas da bondade dessas decisões quando envolvem um entra- e-sai de pessoas que foram eleitas e não convocadas como jogadores de futebol. Dirão os defensores da rapidez que a situação era insustentável, que não dava para aguentar mais. Até podem ter razão. Mas devem perceber que uma decisão destas, que publicamente aparece assim do pé para a mão, deixa qualquer munícipe pouco confortável. Com excepção, claro, dos que sonhavam com o afastamento do vereador e o desmoronamento da coligação e toda a ideia de mudança conquistada em Setembro. 2. Esta inesperada crise política surge a duas semanas de eleições. São europeias, aquelas que menos interesse despertam nos cidadãos. No entanto, são eleições importantes no actual contexto político que se vive na Madeira. E não consigo compreender como podem os responsáveis de uma coligação de seis partidos da oposição desbaratar por completo o capital político alcançado em Setembro do ano passado. A verdade é que as divergências que agora parecem ter sempre existido, afinal foram escondidas na pré-campanha, na campanha e nos seis meses de poder. E foram escancaradas a 15 dias de eleições. Alguém compreende esta pressa? Eu não. O que revela esta inesperada turbulência política é uma tremenda falta de agenda política. E aqui tenho de reconhecer que tem toda a razão quem, por estes dias, me recordou uma das grandes fragilidades dos independentes de várias origens. É que eles não têm preocupações partidárias nem agenda política. Isso, só por si, não é necessariamente mau, mas há o risco de cada um gerir a sua própria agenda. Entretanto, parece que não deram a mínima importância aos milhares de cidadãos que acreditaram numa efectiva mudança. E assim, nesta altura, a briga na Câmara do Funchal parece uma cortina que ajuda a esconder a crise do partido que manda na Madeira há quase 40 anos e que está mais esfrangalhado do que nunca. O PSD agradece a boleia. 3. Outra leitura que resulta desta semana politicamente intensa é a aparente ausência de uma estratégia política devidamente traçada para o que vem a seguir. Percebe-se que o presidente seguiu passos planeados, mas apenas até à parte em que os vereadores aceitavam as suas indicações. A partir daí, não havia plano alternativo. Ora, como os vereadores, pelo menos três deles, não aceitaram ficou a sensação de um vazio estranho. Parece aquela ameaça quase infantil em que o pai grita para a criança: “come ou chamo o velho!”. E a criança, que continua sem comer e sem medo, responde: “chama o velho.” Tudo isto para dizer que a gestão de uma Câmara como a do Funchal obriga a uma importante componente política. É inevitável. Se não fosse assim, bastavam-nos os funcionários. Nestes dias, viu-se de tudo, mas não essa estratégia política. Até pode lá estar, mas não se viu de fora dos gabinetes da Câmara. A ruptura na coligação até poderia acontecer se cabalmente justificada, mas não é isso que se nota. Pelo menos até agora. E está a cidade neste impasse: não se sabe bem até quando haverá coligação, não se sabe bem até quando se aguenta a vereação. Se a ideia é prolongar a crise até à inevitabilidade de umas eleições intercalares, junto-me aos que têm reservas quanto à garantia de sucesso. E permito-me lembrar que depois do Verão da vitória eleitoral, vem o Outono da governação e depois o Inverno... o próximo Verão ainda vem longe. Que tal acalmar os ânimos e decidir pela cidade e por uma agenda política sustentada, que veja mais além do que as próximas horas ou as próximas eleições? É só uma sugestão para não deitarem tudo a perder. A bem da mudança em toda Região.