O mundo mudou, as pessoas também. Contudo, muitos não só continuam agarrados ao passado, como também nos querem lá fazer regressar. Fazem uns embrulhos bonitos, utilizam falinhas mansas e demagógicas apelando à natural nostalgia que alguns (compreensivelmente diga-se) sentem do seu tempo.
A título de exemplo, é normal ouvirmos que a antiga instrução primária é que era boa. Ou seja, é um claro indicador que não se pensa fazer uma rotura no processo pedagógico de forma a que a educação seja o desenvolvimento das capacidades e potencialidades de cada um, nomeadamente, desenvolvendo o espírito crítico (credo que blasfémia!), a autonomia, a criatividade, a capacidade de adaptação e a montagem de estratégias (tudo modernices). O que parece ser desejado e necessário (para acabar com as atuais disfuncionalidades e trapalhadas em que se transformou o actual sistema educativo) é o regresso ao passado e ensinar a ler, escrever, contar e ter orgulho na pátria (mesmo que tudo isto seja feito de forma muito encapotada, repetimos).
É normal que cada um de nós olhe para o seu passado e lhe atribua a razão de ser daquilo que hoje é. Trata-se de um processo típico de solicitação-adaptação-transformação.
Assim, por um lado, há aqueles que recordam que começaram a trabalhar aos 10 anos e só ao domingo é que descansavam, ou melhor iam à missa de manhã e passeavam no jardim público da parte da tarde. Por outro lado, outros enaltecem os três meses de “férias grandes” em que construíam os próprios brinquedos, jogavam e se divertiam até que o corpo deixasse ou os pais chamassem, etc.
Mas o tempo não volta para trás, por mais que o queiramos, os tempos são outros, as solicitações são diferentes, os problemas a que temos de dar resposta são de outra natureza e complexidade. Querer voltar ao passado é o mesmo que querer continuar a utilizar os carros de hoje mas nas estradas de há 50 anos.
Mas o que é um tempo? Já pensou que quando não tem mesmo nada que fazer ou tem de aturar uma maçada, cinco minutos nunca mais passam e quando está divertido ou entusiasmado, uma hora passa num instante? Mais do que um relógio, cada um de nós é a medida do seu tempo. O tempo depende do contexto e nesse contexto podemos mexer. Mas antes de mais temos de saber o que queremos e ter o sentido crítico necessário para sabermos também o que não queremos. Mas há quem se sente e fique à espera que o “tempo” lhe caia em cima. E depois ainda se queixam.
Está tudo a andar, a vida é um jogo permanente nas pessoas, nas instituições, na sociedade. Temos de saber jogar, ter prazer em jogar.
É bom que não se renegue o passado, mas também não podemos querer voltar para trás só porque somos ignorantes (se não conhecermos as potencialidades que hoje existem), incompetentes (se as conhecemos mas não as sabemos utilizar e desenvolver) ou desonestos (se as conhecemos, se as sabemos desenvolver, mas não o fazemos).
Hélder Lopes