Esta semana um amigo lembrou-se de me oferecer um livro usado com ar de nunca ter sido folheado sequer, que fora salvo de uma limpeza geral na prateleira do trabalho. Chama-se ‘Tribuna Livre’, da autoria de Alberto João Jardim cuja fotografia surge na capa, com menos 40 anos mas com a mesma pose de candidato único importante, ladeado por um arranjo floral de orquídeas que faziam pandã com a gravata encarnada.

Assim que me caiu nas mãos pareceu-me mais uma ode com aquelas prosas cegas pela partidarite que trazem lavagens cerebrais no bico, sem ponta que se lhe pegue. Dei-lhe o benefício da dúvida e passei-lhe os olhos. Posso dizer que retirando os recalcamentos ideológicos típicos de um ser pouco dado à convivência democrática, já na época indisfarçáveis, aquela compilação de vários artigos da autoria do primeiro candidato do PPD, em 1976, era uma daquelas pérolas que se encontra nas conchas depois de alguém limpar o berbigão.

Ora vejamos. A primeira pergunta é digna de um ‘Trivial Pursuit’. Quem disse que “um dos princípios de boa Administração é o da definição correcta das prioridades”? Thatcher, Carter ou Jardim? Pista número 1: foi o mesmo que deixou acumular calotes em dívidas aos fornecedores e que desviou 86 milhões de euros das farmácias para pagar obras públicas, gerando ruptura nos medicamentos. Já dá para adivinhar? Foi o governante que escondeu das instituições mais de mil facturas de obras públicas, não está a ver? “E esta definição é tanto mais premente, quanto maiores são as carências de meios a enfermarem o erário público. Nestas circunstâncias, como não se pode fazer de tudo, há que escolher bem o pouco que se possa executar. É preciso, pois, optar com visão”, acrescentou com um pragmatismo o autor do livro, Alberto João Jardim, há 38 anos, na sua estreia como candidato a presidente do Governo Regional. A primeira de nove.

Há bens que chegaram demasiado tarde. A limitação de mandatos foi um deles. E à Madeira, nem chegou ainda. Por isso é que se continua a confundir convivência com conivência democrática. Só isso pode explicar que continue a haver tanta gente – bem menos, felizmente – a se acomodar enquanto o eterno líder estracinhava ideais, princípios, valores e estratégias orientadoras dessa social-democracia. Mas a culpa é também de todos nós, da iliteracia cívica e do comodismo intelectual cultivados e que durante anos alimentamos pelo voto.

Em Fevereiro de 1976, as reflexões teóricas que assaltavam a consciência do notável candidato do PPD surgiam também no contexto das opções de investimento que na altura se anunciavam para a remodelação do porto do Funchal e do aeroporto. “Ora, pergunta-se: há possibilidades materiais de se avançar simultaneamente com o porto e o aeroporto? Se existem encantado. Mas, se não há? Já se pensou qual a opção que deve ser assumida? Já foi estudado convenientemente se se deveria adstrir as verbas possíveis ao aeroporto, prioritariamente em relação ao porto?”. Será que li bem? Alberto João Jardim azombado com o dinheiro de Lisboa? Nunca vi nenhuma preocupação dele em avaliar o custo/benefício das obras públicas na Madeira. Basta ver a marina do Lugar de Baixo. Era a mais fácil do ponto de vista conceptual devido aos baixios, mas logo tornou-se na mais bela obra-prima da derrapagem financeira da Madeira – um poço sem fundo com mais de 100 milhões de euros injectados e sem que ninguém saiba ainda para que vai servir. Alguma vez se pensou que as concessões milionárias da exploração das novas redes viárias deixariam as antigas estradas regionais sem dinheiro para remendar um buraco? E o que diria esse Alberto João Jardim de há 38 anos sobre o monopólio do porto comercial? E sobre a construção de um segundo cais acostável no Funchal em plena falência da Madeira?

Diria talvez aquilo que disse: “Eis porque tudo aquilo que se pensar fazer tem de ser bem mastigado, a fim de os dinheiros públicos encontrarem a melhor aplicação possível. E, nesta época de austeridade, o critério da melhor aplicação afere-se pelo máximo de utilidade colectiva que o investimento público pode gerar.” Palavras sábias. Mas de que servem se ficam 38 anos presas num livro que ninguém lê? Se o seu autor é o primeiro a descredibilizá-las?

Hoje, Alberto João Jardim diz-se de ”calças na mão” mas nada arrependido por ter aberto um buraco de 8 mil milhões de euros nas contas públicas que nos vale o pior programa de austeridade que alguma vez conhecemos desde 1976. E bastou Passos Coelho sanear as contas para vê-lo reincidir no pecado capital do lançamento das obras públicas. Passados 38 anos, descobre-se que numa região falida a prioridade continua a ser aquela que nunca foi escrita em livro algum: “reaquecer” o sector da construção civil com 450 milhões de euros.