Em quatro meses apenas, a Madeira deixou de ser a região onde “passa fome quem quer” para se tornar na Região onde só passa fome quem o Governo quiser. Em vésperas das eleições autárquicas de Setembro último ascendia a mais de 23 mil o número de beneficiários da ajuda alimentar na Madeira, dos quais perto de 5.500 dependiam das refeições das cantinas sociais ou da comparticipação para a aquisição de bens alimentares nos supermercados ao abrigo do programa de emergência alimentar. O mesmo do qual já foram injustamente excluídos perto de 1.500 madeirenses este ano.

Nada mudou significativamente desde as eleições para que a situação socio-económica das famílias mais carenciadas as dispensasse desta ajuda elementar. Primeiro, porque as dificuldades continuam a ser tão ou mais aflitivas. Depois, porque a fome não morre nas urnas. Por isso mesmo a decisão de cortar – ou melhor “manter” a verba do apoio mas dividi-la por mais tempo, conforme elucida aos maldizentes o astucioso ‘esclarecimento’ da Secretaria – nos apoios sociais destinados à salvaguarda do mais primário dos direitos dos cidadãos, recusando em ajudar a matar a fome a quem tem de subsistir com 120 euros/mês, já diz muito sobre o carácter humanitário de quem governa em desvario e continuando a eleger outras prioridades que enchem até à boca do estômago negócios de areia, cimento e tetrápodes à medida das megalomanias públicas.

E mais grave se torna quando existem fortes indícios de favorecimento para uns e sanções para outros tendo por base critérios enquadrados apenas numa cega e hedionda guerrilha política-partidária. Ora, se o critério de selecção dos agregados são as famílias carenciadas com crianças, não há motivo aparente, à luz desta ordem de razão, para haver tantas pessoas excluídas do programa de emergência alimentar em Machico, cuja Santa Casa de Misericórdia foi alvo de uma inexplicável redução do apoio para cinco vezes menos. O concelho está longe de ser dos mais desertificados, envelhecidos, ou ricos da Região para que tivesse de suportar quase um quarto do total de cortes no programa de emergência alimentar.

As motivações são, infelizmente, bem mais execráveis. Resumem-se a uma sanção civil decretada por um governo autocrata sem tradição de alternância e alérgico à democracia plural. “O povo também se engana e pode ter-se enganado e não merece ser representado por certa gente”, disse Alberto João Jardim nas comemorações do 25 de Abril. Já antes, deixara insinuações em tom de aviso aos eleitores ‘ingratos’ que não deram o voto ao seu partido em sete dos onze municípios da Madeira.

O mais revoltante é constatar que há pessoas neste espremedor do laboratório de ensaios onde quem governa só tem olhos para o mapa administrativo. Alguém de fraca lucidez parece vidrado na ideia maquiavélica de instalar nos concelhos ‘ingratos’ e ‘teimosos’ da Madeira uma espécie de “40 anos no deserto”, uma peregrinação de infiéis à fome e chicoteados nos olhos por tempestades de areia até que entendam de vez que único e importante só há um - Ele que promete voltar se não houver unidade em torno de um partido “hegemónico” mas simultaneamente democrático, um conceito cada vez mais difícil de entender por dentro e por fora.

É de uma arrogância intelectual extrema, de uma insensibilidade inqualificável estas formas de sanção civil contra o povo por ter exercido o direito de voto em sentido diferente da vontade do poder dominante. Uma tirania a fazer lembrar os embargos comerciais, os saneamentos e as perseguições estalinistas que deixaram aldeias entregues ao canibalismo, nos tempos da antiga União Soviética. Mesmo que por detrás deste ‘apartheid’ administrativo, esteja gente que já vivia a racionar uma panela de arroz cozido com vários dias. Gente em privação material severa. Gente que deixou de poder matar a fome nas cantinas sociais e que agora vive da caridade comunitária. Gente subnutrida que esconde a fome. Gente que já perdeu a vontade de ser gente. Gente, enfim, que “tem o que merece” porque não pede “contas a quem os enganou (leia-se autarcas eleitos por partidos que não o PSD)".