1.227 foram abusadas sexualmente o ano passado. 1227. E estes são os casos que chegaram ao conhecimento das autoridades. Os crimes sexuais contra crianças cresceram o ano passado, num ano em que a criminalidade baixou.

Podia parar o texto por aqui. Este número agride-nos como murros na barriga. Mas não se pode olhar para os números e seguir em frente. Mais de mil crianças, friso eu outra vez, sem conseguir sequer imaginar as marcas que isto deixará nas suas vidas. É um flagelo e não pode deixar de dar um nó no estômago de qualquer pai.

“A mamã/ papá não deixa que nada te aconteça”, costumamos dizer, quando têm pesadelos, medos, receios. Mandamo-los avançar com toda a segurança num Mundo de insegurança que não controlamos, por não estarmos 24 horas por dia com eles e por ser humanamente impossível. Temos que viver com essa limitação.

E, infelizmente, não há uma palavra para os pais, só muitas perguntas, medos, pesadelos e receios, a que as autoridades, as entidades e a sociedade em geral não conseguem responder.

A partir de que idade se deve alertar as crianças para este problema? Ou não se deve de todo? Como se explica a uma criança que não pode tirar o fato-de-banho na praia? “Mas porquê, porquê?”, perguntam eles, felizes, perante o olhar da mãe/pai à procura de um prevaricador. Um “Porque não se pode andar nu na rua”, às vezes não chega. E se calhar as crianças têm direito a essa liberdade.

Deveriam ter, pelo menos. Mas não têm, não quando há mais de 1000 crianças abusadas num ano e apenas 70 detidos.

Eu, que já cheguei a dizer que há no Mundo pessoas más e não estava a falar de abusos sexuais, mas apenas a explicar a razão pela qual não se deve falar com estranhos, não tenho respostas. Não esqueço o ar desgostoso de quem descobriu o mal. “Mas porque é que as pessoas são más?”: Engoli em seco, não consegui responder de forma convincente e ainda hoje ele volta, confuso, a este tema.

“Mas porque é que ainda há tantos casos de crianças a quem tudo falhou?”, questiono eu. “Como se baixam estes números?; O que podemos fazer?”

É preciso também respostas para os pais *.

* ignorando aqui os casos em que os pais/ familiares são os agressores, que também os há.