As políticas de intenção deste governo que vão sendo descobertas no vão de escada para desempacotar depois de Maio, dão para perceber que o período de pós-troika em Portugal não será uma saída à irlandesa, nem limpinha, nem airosa, mas uma nova entrada para mais ‘troika’. Mas sem ‘troika’. Será bem mais duradouro, tortuoso e severo do que a dúzia de avaliações aos desempacotamentos de medidas de austeridade com que o nosso país foi embalando a vida dos portugueses, electrocutando direitos à medida que a máquina de atrocidades sociais ia executando aquele programa de ajustamento económico e financeiro e debitando números, cifrões, metas e percentagens para expurgar a dívida pública e salvar o Estado e a Administração Pública da bancarrota.

O legado que a ‘troika’ nos deixa é um governo anti-social, que se tornou num viciado na tributação fiscal e que quer resolver em quatro anos problemas estruturais, alguns deles com mais de 40 anos. Como se não houvesse país para além das contas públicas. Não bastava Portugal condenar os seus idosos e expulsar os seus filhos, tinha a velha nação ainda de sofrer de Alzheimer. Esquece-se dos seus deveres e obrigações. Torna o desemprego insustentável, o envelhecimento irreversível e o emprego ainda mais instável. E decide indexar matéria de direitos como as pensões àquilo que ele próprio é incapaz de inverter - à recessão económica e ao envelhecimento populacional - revelador de um claro sinal de impotência, de desespero e de falta de soluções por parte de quem governa.

Mais do que ter perdido a noção da razoabilidade, Portugal perdeu o tacto da sua própria realidade. E até parece orgulhar-se de ser o estado mais tirano da Europa Ocidental. É um regozijo deixar gente à fome, mandar os jovens para o estrangeiro e no fim apresentar os resultados financeiros em Bruxelas. Executa até ao extremo um plano de empobrecimento e de envelhecimento sugerido pelos credores externos mas acobarda-se perante a imperiosa necessidade de extinguir os velhos lóbis instalados. O que vamos encontrar nesta devolução da independência administrativa e financeira à pátria nossa, em finais de Maio, é um governo sem ‘troika’ mas legitimado para continuar a executar cego, surdo e mudo nas costas dos portugueses, vergando os fracos e deixando-se esmagar pelos fortes. Será uma bizarra máquina trituradora de direitos, movida a impostos. Será uma espécie de 'Portugoika'.