Na tradição popular diz-se que, quando se atira barro à parede, algum sempre acaba por ficar lá pregado.
Assistimos presentemente a mais uma destas encenações de Passos Coelho, à semelhança de todas as que fez até agora. Lança uma calculada fuga de informação, através dum qualquer cinzento e obscuro membro do governo, seguem-se os mais veementes protestos do costume, de parte de diferentes membros do governo, Passos nega e por fim aparece Portas garantindo “a pés juntos” que tal não sucederá. Algum tempo depois, a medida surge em todo o seu esplendor, mais gravosa do que inicialmente anunciada, a reboque duma qualquer avaliação da troica.
Foi assim antes, será assim no futuro, cobarde e capciosamente. Estou mesmo em crer, que quando o governo, para impor as medidas mais gravosas para as pessoas, “encomenda o sermão” à troica, a medida aparece depois vinda de fora, como inevitável, pois se não a cumprirmos será o fim do mundo.
Se analisarmos com alguma atenção os protestos recentes de Passos e “sus muchachos”, nas suas declarações está recorrentemente presente a expressão “não serão pedidos mais sacrifícios aos portugueses”. Porquê este “mais”? Porquê este eufemismo? A resposta óbvia é a de que, desta vez, o que pretende para já, é manter os “transitórios” cortes, com a firme intenção de os tornar definitivos, preparando, desde já, a justificação que dará quando for acusado mais uma vez de mentir e enganar, no próximo futuro, logo depois das eleições europeias.
Outra interpretação possível, compatível com a anterior, é a de reabilitar uma lei Sócrates que indexava o aumento das pensões ao crescimento económico, para impedir exageros comprometedores da sua sustentabilidade. Deste modo, com uns ligeiros retoques aqui e ali, ou mesmo sem alterar o texto, subverte completamente o sentido da lei e indexa os salários e as pensões à recessão inevitável e resultante da sua forma de fazer política.
Para cumprir a sua agenda ideológica da “recessão redentora”, sem beliscar os privilégios intocáveis dos afortunados e as benesses dos grandes grupos, sobretudo os financeiros e as empresas monopolistas resultantes das privatizações, mantendo ao mesmo tempo a sua postura de não pretender negociar, quer a percentagem de deficit, quer os prazos de pagamento da dívida, apenas lhe resta uma saída: Cobrar mais aos mesmos, da mesma forma, pois para cumprir o deficit de 2,5% para 2014, necessitará “arranjar” o montante de 1,7 mil milhões de Euros. Para isso, utilizará a fórmula habitual de cortar mais uma vez nos salários da função pública, nos pensionistas e nas verbas consignadas ao pouco que resta do moribundo estado social. Em 2015 não será diferente.
Podemos ter a absoluta certeza de que este governo não esmorece na sua agenda ou na sua estratégia. Poderá, se a isso for obrigado, fazer um recuo tático, como aquele a que agora assistimos, mas logo regressará com força redobrada, com medidas revanchistas mais gravosas, como aconteceu quando o Tribunal Constitucional “lhes foi à mão”, porque, como diz o ditado popular, ”o direito do cajado é ser torto”.
P.S. Lamentavelmente, um estudo da OCDE divulgado na passada semana, relativo à natalidade em Portugal, confirmou os meus receios expressos anteriormente nesta coluna, de que, a manterem-se as atuais políticas neoliberais, nacionais, europeias e mundiais, geradoras de instabilidade, insegurança conjugadas com o desaparecimento de formas de proteção social, a população vai mesmo decrescer assustadoramente, com as consequências, entre outras de tornar insustentável o sistema nacional de reformas e pensões. Quais os jovens que, a manterem-se as políticas atuais, arriscam, no seu perfeito juízo, a ficar em Portugal, ou mesmo que cá fiquem, a trazer filhos ao mundo?
Helder Melim