
É preciso ter uma lata daquelas de caloteiro de mercearia para derramar lágrimas de crocodilo perante a possibilidade das pensões virem a estar indexadas ao crescimento económico e à demografia. Alberto João Jardim, em gozo de férias no Porto Santo, onde a taxa de desemprego jovem é a mais alta do país, desfrutando de uma casa mantida pelos madeirenses, protegido por guarda-costas pago por todos nós, usufruindo de um estatuto extinto em todo o país excepto na Madeira que permite ao solidário governante reformado acumular pensão com salário e auferindo 11 mil euros brutos todos os meses, só pode estar a caçoar com a gente ao afirmar que “as pessoas não podem viver na incerteza”.
Jardim comove-se tanto com os cortes nas pensões que até se esquece que é o único aposentado que governa. Em vez de aguardar expectante perante as novas medidas gravosas que Passos Coelho tem na manga para lançar à mesa depois das eleições europeias, o presidente do Governo Regional devia estar mais preocupado em fazer o trabalho de casa e pensar um pouco nas gerações vindouras e não no seu próprio umbigo e dos seus comparsas: incentivar a natalidade, incrementar políticas de apoio ao emprego, encorajar a fixação de jovens na Madeira, apoiar o empreendedorismo e a iniciativa privada, reduzir a despesa na administração pública regional sem fazer da Saúde e da Educação os eternos parentes pobres, aumentar os níveis de produtividade, desburocratizar os serviços, garantir a sustentabilidade económico-financeira da Região e ter um plano próprio para evitar os tais cortes dos quais “discorda em absoluto”. Um plano como aquele que os deputados do PSD-M negociaram no Orçamento de Estado, mas em sentido contrário. Que abdique de excentricidades absurdas como a acumulação de reforma para que o Estado poupe à Madeira a implementação de um regime de pensões indexadas ao crescimento económico e à demografia. Que use a “moeda de troca” para o bem do interesse de todos e não de um punhado de políticos privilegiados na Madeira. É mais fácil verter lágrimas de crocodilo de barriga cheia, de férias com casa paga e apontar o dedo indicador a Lisboa, não é? Assim, a ideia que fica é que o Governo Regional já não trabalha. Aposentou-se!
O trabalho de casa de Jardim é avaliável numa escala de leviandade a imoralidade, sobre o qual não lhe ouvimos uma palavra. Não “discordará em absoluto”, o presidente do Governo Regional, que titulares de cargos públicos, entre os quais os secretários regionais Ventura Garcês e Manuel António Correia, se declarem auto-promovidos da carreira de regime geral para a carreira tributária onde nunca puseram os pés, violando as normas e a imparcialidade dos procedimentos administrativos que eles próprios, por inerência de cargos, têm a obrigação de defender? Essa deliberação, não viola “a expectativa legitimamente adquirida” dos funcionários públicos com carreiras congeladas e que ingressaram no quadro pelo mérito, através de concurso público e da realização de provas de conhecimento?
Por tudo isto, são indecorosas e insultuosas as lamúrias de Alberto João. É como comparar a agricultura ao Telexfree, a calosidade ao facilitismo, a honestidade à burla, como se das plantações nos socalcos mantidos com suor e trabalho nascessem poços de petróleo com um clique. Como se os fundos estruturais do quadro comunitário de apoio fossem uma galinha dos ovos de ouro de uma pirâmide de marketing multinível que jorra dividendos até o dia em que deixa de haver investidores da batota como aqueles que fingem governar para o bem colectivo.