Provavelmente porque a decisão estava condicionada (decidida!) desde a primeira hora, por força de interesses que todos os partidos protegem, quase ninguém perdeu tempo a projectar as vantagens e desvantagens do ‘outro cenário’.
Refiro-me à reunião do Conselho Regional do PSD-Madeira, no passado dia 22 de Março, que ficará para sempre marcada por aquele comprovativo de respeito pelos conselheiros, com a publicação de resultados e conclusões de votações e de discussões que nem tinham ocorrido. (A propósito, acho giríssima a forma como se desculpabiliza a trafulhice: “Caramba, isso sempre se fez assim...”)
Como se sabe, na reunião do Conselho de Regional havia que decidir sobre a antecipação do congresso do partido em cerca de seis meses, na sequência de um requerimento subscrito por mais de 600 militantes. A proposta foi recusada!
O resultado da reunião pode ser analisado na perspectiva interna (na salvaguarda dos interesses e da estratégia do partido que ainda está no poder), mas também deveria ser apreciado pelas consequências colaterais, externas, que abrangeriam toda a sociedade madeirense.
Na perspectiva social-democrata, é evidente que pelo menos dois dos interessados na disputa da próxima liderança do partido não estavam nada motivados para prescindirem, desde logo, do conforto e das mordomias do governo. Qual é a pressa? – terão perguntado o vice-presidente e o secretário do Ambiente.
Para além disso, a antecipação do congresso significaria reerguer o fantasma Jardim. Pelo menos durante uns dias, ou até à definição de cargos dentro das candidaturas, porque quem conhece a personalidade egocêntrica do presidente jamais imaginaria que ele se recandidatasse. Por uma razão muito simples: pode continuar por aí com “tontices”, mas até ele já tem a certeza que apanharia uma ‘banhada’ histórica. Com qualquer candidato.
Mas é em termos externos ao PSD que a ‘coisa’ teria maior interesse. Desde logo, porque haveria também antecipação de Eleições Legislativas, o que obrigaria a um reescalonamento generalizado de prioridades e estratégias, do CDS ao PS, do PTP aos Juntos Pelo Povo.
Imaginemos só, perante a possibilidade real da Oposição finalmente derrubar o PSD do poder, quem poderiam ser os candidatos oposicionistas adaptados a essa realidade. Victor Freitas? Paulo Cafôfo? José Manuel Rodrigues? Se a coisa descamba, é óbvio que o PSD pós-Jardim receberia ‘luz verde’ para mais uns mandatos...
Partidos à parte, também se poderia ver a antecipação da disputa interna no PSD na perspectiva da sociedade madeirense. Desde logo, seria um rude golpe nos mil-e-um estratagemas que estarão a ser ‘bolados’ nesta recta final do mandato governativo. Cairia quase tudo pela base, pela falta de tempo para materializar as coisas. Quantos esquemas ficariam a meio? Era tudo lucro, na perspectiva do povo que tudo paga.
Sim, seria tudo lucro!