Esperança, expectativa e iniciativa foram banidas do sentimento nacional Começa hoje o mês em que Portugal mudou. Se há 40 anos me dissessem que haveríamos de estar como estamos, diria que era conversa do dia das petas. Infelizmente não é. Durante este tempo houve coisas boas e outras más, erros e acertos. Mas se dificilmente se encontram três anos tão castigados para o país e as suas gentes, também não se encontra um leque de ‘governantes’ como o actual, cumpridores zelosos de um programa “muito para além do memorando” e da promessa de Passos Coelho em 2011 de que iria “surpreender”. Louvaram a chegada da troika e a consequente situação de protectorado em que o país ficou, submeteram-se ao poder alemão, hipotecaram o futuro dos portugueses por muitos anos; esperança, expectativa e iniciativa foram banidas do sentimento nacional. Danos colaterais, que o que importa é que na vida dessa gente não haja faltas, os seus filhos vão confortados e alimentados para as escolas, o emprego esteja garantido (cargo no governo é estágio para boa carreira na alta finança, do FMI à Goldman Sachs) e entregar a casa ao banco seja problema que se não coloca. Por isso na Europa recusam negociar ou discutir, fugiram de conclamar uma política conjunta dos países do sul em dificuldades, demitem-se de defender a capacidade do país para definir políticas internas, aceitam sem remorso que Portugal tenha o 4º mais baixo custo do trabalho - É que temos que empobrecer! Por isso falam de alto cá dentro, com uma sobranceria e arrogância só possíveis porque souberam, com arte, induzir o medo (basta saber dramatizar a informação e os dados para que se instale o medo de vir a perder o mínimo direito que ainda exista) e criar um clima de apatia política (que vem por arrasto) pela convicção do Não vale a pena e de que há sequer capacidade para ter qualquer influência na tomada de decisões. É o conhecido “Eles é que sabem”. E se eles sabem! Tivemos agora mais duas novidades no castigo aos reformados e aos funcionários públicos. Uma oportuna estatística do INE estima que em 2060 (daqui a 46 anos!) Portugal perca 40% da população, enquanto a esperança de vida das mulheres sobe até aos 90 anos e a dos homens até aos 84. O que é que isto significa? Que aumentando a esperança de vida, deverá aumentar a idade da reforma; que prevendo-se mais reformados que empregados, não há outro remédio que diminuir mais as pensões; que com menos gente, e mais velha, o aumento da produção interna é ainda mais difícil (o reaparecido secretário de Estado Lomba tem a solução “É preciso fazer regressar os emigrantes”! Como, estalando os dedos?). Por ‘mera coincidência’ o melífluo Passos reafirma que “tem que haver sustentabilidade da Segurança Social”. Como esta sondagem vem a jeito…, ainda que pelo caminho que leva a Saúde em Portugal e com a destruição do Serviço Nacional de Saúde, a estatística da esperança de vida arrisque ser um fiasco! Já agora, porque é que o INE não fez previsões sobre as consequências da austeridade - com o prazo mais curto (3 anos) a probabilidade de acerto era maior. Ou será que já sabiam e esconderam? A outra novidade surge de um impulso de outro secretário de Estado, o das Finanças. Lembrou-se ele, um dia pela manhã e pela calada de um briefing, de informar das reflexões sobre a indexação das pensões a indicadores demográficos e económicos. Se mal pergunte, se o montante da pensão a pagar depende de estado da economia, o montante do desconto para a Segurança Social a que os funcionários estão mensalmente obrigados também varia consoante o país for rico ou pobre? Ou para descontar a regra é uma e para receber é outra? E daqui a quantos anos é que um eventual aumento da natalidade, hoje, se reflecte na Segurança Social? Boa parte do Governo (a ministra das finanças está calada que nem um rato - a ver se a medida pegava?) expressou curiosa urticária a este aparente deslize: “manipulação dos jornalistas”, “prematuro falar de cortes”, “um erro que criou ruído”, “lamenta-se o ruído em espaço público”. Houve de tudo, mas nem um desmentiu o secretário de Estado. Estamos conversados - que as eleições europeias estão à porta! Hoje é 1 de Abril, mas nada disto é peta. Violante Saramago Matos

Esperança, expectativa e iniciativa foram banidas do sentimento nacional

Começa hoje o mês em que Portugal mudou. Se há 40 anos me dissessem que haveríamos de estar como estamos, diria que era conversa do dia das petas. Infelizmente não é.

Durante este tempo houve coisas boas e outras más, erros e acertos. Mas se dificilmente se encontram três anos tão castigados para o país e as suas gentes, também não se encontra um leque de ‘governantes’ como o actual, cumpridores zelosos de um programa “muito para além do memorando” e da promessa de Passos Coelho em 2011 de que iria “surpreender”. Louvaram a chegada da troika e a consequente situação de protectorado em que o país ficou, submeteram-se ao poder alemão, hipotecaram o futuro dos portugueses por muitos anos; esperança, expectativa e iniciativa foram banidas do sentimento nacional. Danos colaterais, que o que importa é que na vida dessa gente não haja faltas, os seus filhos vão confortados e alimentados para as escolas, o emprego esteja garantido (cargo no governo é estágio para boa carreira na alta finança, do FMI à Goldman Sachs) e entregar a casa ao banco seja problema que se não coloca.

Por isso na Europa recusam negociar ou discutir, fugiram de conclamar uma política conjunta dos países do sul em dificuldades, demitem-se de defender a capacidade do país para definir políticas internas, aceitam sem remorso que Portugal tenha o 4º mais baixo custo do trabalho - É que temos que empobrecer!

Por isso falam de alto cá dentro, com uma sobranceria e arrogância só possíveis porque souberam, com arte, induzir o medo (basta saber dramatizar a informação e os dados para que se instale o medo de vir a perder o mínimo direito que ainda exista) e criar um clima de apatia política (que vem por arrasto) pela convicção do Não vale a pena e de que há sequer capacidade para ter qualquer influência na tomada de decisões. É o conhecido “Eles é que sabem”. E se eles sabem!

Tivemos agora mais duas novidades no castigo aos reformados e aos funcionários públicos. Uma oportuna estatística do INE estima que em 2060 (daqui a 46 anos!) Portugal perca 40% da população, enquanto a esperança de vida das mulheres sobe até aos 90 anos e a dos homens até aos 84. O que é que isto significa? Que aumentando a esperança de vida, deverá aumentar a idade da reforma; que prevendo-se mais reformados que empregados, não há outro remédio que diminuir mais as pensões; que com menos gente, e mais velha, o aumento da produção interna é ainda mais difícil (o reaparecido secretário de Estado Lomba tem a solução “É preciso fazer regressar os emigrantes”! Como, estalando os dedos?). Por ‘mera coincidência’ o melífluo Passos reafirma que “tem que haver sustentabilidade da Segurança Social”. Como esta sondagem vem a jeito…, ainda que pelo caminho que leva a Saúde em Portugal e com a destruição do Serviço Nacional de Saúde, a estatística da esperança de vida arrisque ser um fiasco!

Já agora, porque é que o INE não fez previsões sobre as consequências da austeridade - com o prazo mais curto (3 anos) a probabilidade de acerto era maior. Ou será que já sabiam e esconderam?

A outra novidade surge de um impulso de outro secretário de Estado, o das Finanças. Lembrou-se ele, um dia pela manhã e pela calada de um briefing, de informar das reflexões sobre a indexação das pensões a indicadores demográficos e económicos. Se mal pergunte, se o montante da pensão a pagar depende de estado da economia, o montante do desconto para a Segurança Social a que os funcionários estão mensalmente obrigados também varia consoante o país for rico ou pobre? Ou para descontar a regra é uma e para receber é outra? E daqui a quantos anos é que um eventual aumento da natalidade, hoje, se reflecte na Segurança Social?

Boa parte do Governo (a ministra das finanças está calada que nem um rato - a ver se a medida pegava?) expressou curiosa urticária a este aparente deslize: “manipulação dos jornalistas”, “prematuro falar de cortes”, “um erro que criou ruído”, “lamenta-se o ruído em espaço público”. Houve de tudo, mas nem um desmentiu o secretário de Estado. Estamos conversados - que as eleições europeias estão à porta!

Hoje é 1 de Abril, mas nada disto é peta.

Violante Saramago Matos