Tal como num álbum com fotos de várias épocas, também o Governo Regional volta e meia se lembra de mandar publicar retratos do que era a Madeira antes e depois de lá chegar. Ao melhor estilo da propaganda sem pudor, a ideia pretende evidenciar as maravilhas que foram plantadas por toda a Região. Para um raciocínio primário, este modelo chega e sobra. Porque grande parte da população foi ensinada a não fazer ondas, a ver e aplaudir sem pestanejar. E a agradecer sempre na eleição seguinte à inauguração, depositando o voto no partido que faz a obra. Durante mais de 30 anos, esta prática básica representou sucessivas vitórias eleitorais. A trilogia milhões, eleições, inaugurações deu a volta tantas vezes e cedo deu a volta aos madeirenses. Dava tudo certo. Havia milhões do Estado e da Europa, esses milhões foram enterrados em obras, as obras davam inaugurações e as inaugurações voltavam a dar vitória nas eleições. Simples e eficaz. Mas agora o tempo é outro. Os milhões são menos, as obras escasseiam, as inaugurações são raras, algumas até completamente ridículas, e as vitórias eleitorais já não são garantidas. Agora há desemprego a rodos, há milhares que emigraram, há famílias desesperadas, há falências inesperadas, há pobreza declarada e ajudas assumidas para matar a fome. Tudo isso, como se sabe, não se inaugura. Governo nenhum inaugura a sua falência, os seus erros, a sua implosão. E este governo não é diferente dos outros. Mas tem, neste contexto, uma característica rara por essa Europa fora: é que o governo que nos deu a cheirar a vida de novo-rico, é o mesmo que criou uma legião de novos-pobres. A base que levou esta geração a delirar com betão, é a mesma que deixa tanta gente sem nada na mão. A maioria que tanto vinho seco derramou em inaugurações, é a mesma que agora procura na caridade a gratidão que não consegue na festa das obras feitas. E tal como o núcleo restrito que enriqueceu com a política e a boca cheia de autonomia, é sensivelmente o mesmo que hoje vive bem, embora com menos lucros, também a vasta camada da população, que efectivamente conheceu novos níveis de conforto, sente que deu a volta e está no mesmo lugar da geração anterior. É verdade que temos túneis e estradas e centros de saúde e escolas e clubes e casas do povo e igrejas e rotundas e centros cívicos. Mas também é verdade que não há emprego, que a carreira dos jovens está para lá do aeroporto, que o futuro é sombrio e sem rumo. Longe da propaganda do Governo Regional, que nos sai muito cara, esta realidade chega-nos todos os dias. Está aí, nos cafés, na rua, em qualquer esquina, em qualquer família ou empresa. E mostra-nos outra forma de ver o antes e o depois. Se durante anos vivemos no antes da crise, em que para tudo era permitido o esbanjamento de dinheiros públicos, agora parece que estamos na fase do depois da festa daquelas de casamento à antiga, que durava vários dias. A verdade é que a festa ainda nem está paga e o noivo já partiu em lua-de-mel. Os convidados que se amanhem.