Eu não era do mundo. Não tinha sítio. Só merecia ser devorado pelo silêncio.
« Solidão é não saber estar consigo mesmo.» Bem, não quero que se pense que uma criança de sete anos pode falar semelhante linguagem. Eu compreendia as coisas, sim, mas não de uma maneira racional. Na minha febril imaginação, criara uma imagem, que sendo uma imagem interior, depositava no meu espírito conteúdos que não eram intelectuais. Fazia-me sentir algo que eu engolia como a cria de uma águia, com os olhos ainda fechados, engole o que lhe depositam no bico. Depois, mais tarde, já na idade adulta, traduzi em palavras o que naquela época eram, como poderei explicar?, aberturas para outros planos da realidade.
« Não estás só. Lembras-te quando na semana passada tiveste a surpresa de ver crescer um girassol no pátio? Chegaste à conclusão de que tinha sido o vento que tinha trazido uma semente. Uma semente, aparentemente insignificante, continha nela a futura flor. Esse grão sabia, de alguma maneira, que planta ia ser; e essa planta não estava no futuro: embora imaterial, embora apenas um desígnio, nela já existia o girassol, a flutuar no vento, durante centenas de quilómetros. E não estava ali só a planta, também a adoração da luz, a rodar à volta do sol, a misteriosa união com a estrela polar, e - por que não? - uma forma de consciência. Tu não és diferente. Tu o que irás ser, já o és. O que irás saber, já o sabes. O que irás procurar, já te procura, está em ti. Posso não ser verdadeiro, mas o velho que agora vais ver, embora não tenha a minha consistência, é real porque és tu, quer dizer, é o que serás.» Não pensei nem ouvi tudo isto, senti-o. E diante de mim, ao pé da minha cama, a minha imaginação permitiu que aparecesse um cavalheiro ancião, de barba e cabeleira prateada, com os olhos cheios de ternura. Era eu mesmo convertido em meu irmão mais velho, em meu pai, em meu avô, em meu mestre. « Não te preocupes tanto, tenho-te acompanhado e acompanhar-te-ei sempre. Cada vez que sofreste, julgando-te sozinho, eu estava contigo. Sabes qual é o maior acto poético ? O maior acto poético é viver. Por isso, apercebo-me dos limites mentais de muita gente. Vivem o mundo material, mas a arte, a beleza…escapam-lhes. No entanto, alegra-te com esse sofrimento: graças a ele chegarás a mim. Um dia disseram-me que: « Quem acrescenta ciência, acrescenta dor.» Mas eu digo-te, que só quem conhece a dor se aproxima da sabedoria. Não posso afirmar-te que a atingi, não passo de uma estação no caminho desse espírito que viaja em direcção ao fim do tempo. Quem serei eu, daqui a três séculos? O quê? Que formas me servirão de veículo? Dentro de dez milhões de anos, a minha consciência ainda precisará de um corpo? Ainda precisarei de utilizar os órgãos sensoriais? Dentro de centenas de milhões de anos, continuarei a dividir a unidade do mundo em visões, sons, cheiros, sabores, imagens tácteis? Serei um indivíduo? Um ser colectivo ? Quando já tiver conhecido o universo inteiro, ou os universos, quando tiver chegado ao fim de todos os tempos, quando a expansão da matéria se detiver e eu empreender com ela o caminho de regresso ao ponto de origem, irei dissolver-me nele? Irei converter-me no mistério que jaz fora do tempo e do espaço? Irei descobrir que o Criador é uma memória sem presente nem futuro? Tu, criança, eu, ancião, teremos sido só recordações, imagens sem substância, sem nunca termos pisado a mais ínfima realidade? Para ti, ainda não existo, para mim já não existes, e quando a nossa história for contada será apenas um colar de palavras escorridas de um monte de silêncio infinito.»
Renata Camacho