De repente, a vida política da Madeira parece resumir-se aos bastidores do PSD. Não fazemos ideia da dimensão da nova vaga de emigração, mas sabemos quantos militantes tem um partido. Não sabemos quanto são os desempregados de longa duração mas conhecemos de cor os “desempregados profissionais”, os candidatos de longa duração e os que passam de lendas a lengalengas. Os professores perdem autoridade nas salas de aulas mas o que vale é a ordem dos candidatos nas listas às europeias. Não se discute o suicídio porque é tabu, mas com o delfinato gasta-se tempo, recursos e paciência com especulações e conjecturas. Dá-se mais espaço às palavras do que aos actos. Às personalidades do que aos seus feitos. Dá-se mais relevo à relação da região com o Estado do que ao estado da Região. Discute-se mais a vitalidade dos partidos e dos seus constituintes do que a saúde dos contribuintes. Questiona-se mais a justiça partidária na vida dos militantes do que Justiça – judicial, fiscal, social, económica – ao serviço da vida das pessoas. Parece que estamos envolvidos num colete de forças, sem capacidade nem imaginação para libertarmo-nos desta partidarite crónica, desta politização que entope os filtros de ar da democracia.

E cá continuamos fascinados, em estado de rendição ao mediático e entretido circo político. Trocamos o nosso juízo cívico pelo frenético delírio em torno do sucessor do tal partido sem tradição de transição. Naquela monarquia reina a desonestidade intelectual e a espiral de negação às convicções, às posições e às atrocidades do passado. É tudo gente séria, sem mácula, sem crimes de ‘lesa pátria’ no cartório. Sem o rasto da teia conivente. Bastou o chefe berrar que estava farto e cansado do partido para que o surto de altruísmo se tornasse em algo epidémico. Para descobrirem que eram marionetas de uma organização absolutista, que eram reflexo da ditadura que ajudaram a implementar cá fora. Tiveram que provar do próprio veneno para enxergar o sinuoso caminho. Tiveram de ouvir o rei dizer que estava cansado da corte para haver indícios de relutância em dobrar a espinha.

É verdade que o passado da Madeira esteve sempre ligado aos bastidores do PSD e aos seus expedientes. Mas como pode ser alternativa de governação para a Madeira quem sempre acenou com a cabeça no momento de dizer basta? São incapazes de salvar o partido e agora querem resgatar a Região? De quem e para quem? Que outros sarilhos ocultos guardam aquela profícua fábrica de interesses? Que segredos atómicos se escondem na central nuclear do despotismo insular? Alguém acredita na fábula do peixe-espada preta que emerge para anunciar que já não pertence ao grupo dos predadores que habitam nos confins da escuridão subaquática, a mil metros de profundidade? Reservará o futuro um lugar para as espadas que descobriram mar para além do palangre de onde nunca quiseram sair?