Juvenal da Silva Caldeira Sempre ouvi dizer que quando o pão do pobre cai, é sempre com o lado que tem manteiga para baixo. O do rico raramente cai, mas quando cai, é sempre com o lado que tem manteiga para cima. O pobre assim justifica os seus insucessos,resignado e revoltado com a sua falta de sorte. Acho que o que falta ao pobre não é sorte, mas sim atitude.
Não muito longe vão os tempos em que a prendada bordadeira, bordando a toalha da srª fina e distinta, tinha cuidados redobrados. Enquanto que a toalha da Pobre, simplesmente era bordada. Embora ambas pagassem o mesmo, ou se calhar talvez para a primeira houvesse um desconto, não vá a senhora, achar caro... afinal nem faz ideia quão trabalhoso é. No entanto talvez venha a ter reforma de bordadeira, sem nunca ter enfiado uma agulha. A Pobre no entanto, talvez nem receba os centimos de troco, afinal a rica não chega e de pobre não passa. Não reclama: que o caseado ficou dentado, que foi tirado menos um fio no arrendado, que o rechelieu ficou retrocído ou que o abastido ficou incanicado.
A Pobre não reclama, não por não saber apreciar uma bela obra de arte, mas por valorizar aquele árduo trabalho. De facto reclama de tudo, do tempo e da vida, do mar e das areias, mas quando deve reclamar cala-se... E não só no bordado, em muitos outros assuntos do seu quotidiano. quando vai ao restaurante juntamente com o pedido não chega a cozinha, a nota de tratamento especial...
Nos dias de hoje a srª fina tomou outras vestes. Afinal os filhos dos pobres tem as melhores moradias, e os netos são academicamente instruídos. Equanto os palacetes caem aos pedaços... A srª distinta transfigurou-se, hoje representa alguém numa repartição pública...
Nós, os pobres, ainda agarrados aos velhos hábitos feudais, perpetuamos no tempo este estado de coisas. Pagamos tudo e mais alguma coisa, mas numa igualdade que é só constitucional, somos discriminados quase que involuntariamente e do mesmo modo permitimos resignados ou revoltados. Não só devemos evitar que o pão caia, mas sobretudo que nos roubem o pão.