Parafraseando um velho amigo meu, “a minha alma fica parva”, quando oiço alguém defender com unhas e dentes a chamada “iniciativa privada”. Não é que seja contra esse tipo de iniciativa, pois aceito a sua necessidade no contexto dos sistemas democráticos. Mas no modelo actual de sociedade, onde urge refundar a democracia, onde os valores éticos e morais há muito que carecem de atenção e a regra, invariavelmente, é atropelar o próximo, a sua existência só pode ter lugar se as autoridades, os governos, exercerem uma fortíssima regulação. Por muito boas intenções, de que aliás o inferno está cheio, que o empresário tenha, a sua entrada na iniciativa privada não ocorre nem por amor ao próximo, nem para início de uma via espiritual, mas antes para aumentar o seu nível material de vida, para aumentar o seu património. Se falarmos de grandes empresas, e é aqui que o problema se adensa, o gestor tem por prioridade remunerar os sócios ou accionistas, dependendo do tipo de sociedade, e não exercer qualquer tipo de compaixão ou mesmo caridade em relação ao consumidor. Não deixa ter piada, mas de muito mau gosto, grandes conglomerados empresariais, depois de esmagarem a concorrência, os chamados pequeninos, os quais pela natureza e pequena dimensão dos seus negócios ainda conservam uma especial relação com os seus clientes, passarem a fazer doação para aqui e para acolá. Quer dizer: primeira esmaga, aniquila e cria desemprego e depois travestidos de bons samaritanos vêm doar uma ínfima parte daquilo que, na sua essência, está impregnado de sofrimento e destruição...
Fernando Rodrigues