Impotência. É essa a palavra que se instalou em mim há já algum tempo, criando no meu íntimo uma sensação de inércia que me faz duvidar da minha integridade e me traz à memória um sonho que me persegue desde criança. Um sonho que é, aliás, mais um pesadelo pela aflição que deposita em mim sempre que, já num universo onírico, me vejo a querer correr para chegar a um destino, mas, por qualquer razão inexplicável, uma das minhas pernas não responde ao apelo do meu corpo e sou forçada a saltar em pé coxinho na tentativa vã de alcançar o que quero. E salto, salto, salto e, quanto mais salto, mais distante parece estar o lugar para onde vou e menos minha parece a perna que resiste à vontade e à necessidade do meu corpo, mantendo-se indiferente ao desespero de quem corre para não perecer. É claro que qualquer psicanalista encontraria matéria para criar uma narrativa em torno desta demanda a pé coxinho que, volta e meia, invade a paz do meu sono, mas eu, que não sou mais do que a protagonista desta, cambada por sinal, limito-me a ficar presa à sensação de impotência que aquele sonho desperta em mim e que me faz crer que, de facto, não há nada mais dramático do que se sentir impotente. E eu sinto-me impotente há 36 dias. Há 36 dias exatamente. Há 36 dias que corro de pé coxinho sem sair do mesmo lugar. Há 36 dias o pesadelo atravessa a realidade assim que, no simples clicar de um link, o espaço virtual me transporta em segundos à minha terra natal, a Venezuela. El que se cansa, pierde... O lema de um povo em luta pela liberdade e pela dignidade ecoa, há 36 dias, no mais profundo do meu ser, fazendo-me ter vergonha de mim própria que, à distância de um continente, nada posso fazer para me juntar à luta por ideais que também são meus. El que se cansa, pierde... El que se cansa, pierde... El que se cansa, pierde. Eu, por mim, sinto que já perdi porque, à semelhança de um mundo inteiro, nada faço para sequer me poder cansar. Assisto, comodamente instalada no meu divã, à morte de estudantes que saíram à rua para exigir o que é deles por direito, a relatos condoídos de vítimas torturadas e violadas brutalmente por quem as devia proteger, à fome de um povo que espera intermináveis horas e intermináveis filas para poder comprar pão, à detenção de intelectuais por um poder iletrado, a discursos governativos que, em pleno século XXI, legitimam a violência da tortura a favor do status quo, ao autoritarismo de um presidente que, armado em Deus, assume publicamente, sem pejo algum, a sua demência, à inércia de um mundo inteiro que não corre o risco de perder porque, simplesmente, nem pensa em se cansar. Todos os dias, há 36 dias, constato que não faço nada pela minha gente. Não porque não queira, é verdade, mas porque não posso nem consigo. E isso deixa em mim o gosto amargo da inutilidade num momento em que, no meu país, se faz História com a mesma pujança e a mesma determinação com que um dia Simón Bolívar lutou contra o jugo espanhol. El que se cansa, pierde e lá, na terra que acolheu e acolhe milhares de portugueses, o povo não perde porque não se cansa de lutar, mesmo que os pais vejam morrer os filhos numa batalha desigual, em que a força pacificadora da palavra enfrenta a cobardia do canhão das armas e a violência gratuita. Por isso, nunca como hoje a impotência me pareceu tão insuportável como a prepotência. Porque a impotência de uns é a prepotência de outros. Não que o já não soubesse. Sabia-o de longas discussões havidas sem dialética possível porque a síntese de ideias bateu de frente na muralha da verdade absoluta do outro. Sabia-o também de outros momentos em que a arrogância toldou a objetividade da análise. Sabia-o ainda de outras tantas vezes em que eu própria, mesmo inconscientemente, fui prepotente e tornei os outros impotentes. Hoje o sei ainda mais, porque, perante o meu país à beira de uma guerra civil, nunca me senti tão venezuelana como agora. E tão inútil também. El que se cansa, pierde. Eu não me cansei, mas, impotente, perdi.

Eker Sommer