
Após o Nacional-Benfica da noite de segunda-feira, Manuel Machado retirou, com uma ironia requintada, a espinha atravessada na garganta de muitos dos adeptos do Nacional. Vendo-se em clara minoria, os alvi-negros barafustaram, num sarcasmo contido, ao verem a sua Choupana invadida por ‘diabos vermelhos’ vindos não se sabe bem de onde. Mal puseram os óculos, foram descobrindo no meio da multidão envaidecida de cachecol encarnado, um sem número de caras bem conhecidas: o vizinho, o primo, os colegas de trabalho, o médico dentista que nunca abriu a boca para falar de futebol, o bate-chapas de Santo António que não perde um jogo do Marítimo e até aquela simpática vendedora de cachorros quentes, transformada numa amazonas de língua afiada e pontaria afinada no lançamento de isqueiros para o relvado.
“Não sabia que havia tanto lisboeta a viver aqui na Região”, desabafou o técnico do Nacional. O professor tem razão para puxar as orelhas. “Quem não gosta do que é seu…”, rematou o técnico do Nacional, fazendo a bola estremecer a trave da nossa consciência. ‘Quem não se sente, não é filho de boa gente’, é verdade senhor professor, mas já que abriu o livro, vamos rever a lição e tentar perceber este alheamento e as razões desta indisciplina clubística insular, desta falta de lealdade aos clubes da terra.
Eu não partilho a opinião de que o futebol de antes é que era bom porque a bola era de couro, o campo pelado e os jogadores homens peludos de barba rija. Acho o futebol cada vez mais espectacular, inovador e poderia ser mais ainda se fosse justo e se quem o dirige estivesse minimamente interessado em construir a verdade desportiva e em introduzir tecnologias ao serviço da justiça nas arbitragens, para que esta modalidade desportiva que movimenta e produz milhões de euros não fosse um instrumento ‘mecanizável’ pela mão do lado mais obscuro do Homem e da sua rede de influências e para que não ficasse tão refém desta dicotomia entre o ‘errare humanum est’ e as suspeitas de corrupção.
Penso que os madeirenses gostam dos clubes da sua terra. Sentem orgulho nas suas raízes, nas suas conquistas, vivem a rivalidade e não escondem o gáudio quando os meninos de Lisboa fazem chichi nas calças durante as aterragens de Inverno no aeroporto da Madeira. Esta crise de identidade tem outras causas fora das quatro linhas e fora da esfera futebolística. É preciso não esquecer que a política desportiva adulterou o sentimento de pertença dos madeirenses e agudizou a crise de identidade de clubes grandes como o Nacional e o Marítimo. Por um lado, a cultura da borla enraizou-se no basalto que transformou os estádios de futebol num anfiteatro flaviano onde se instituiu que só paga bilhete a plebe parva. Por outro lado, a subsidiodependência afastou os clubes dos sócios, dos simpatizantes, da sua história. As instituições desportivas embarcaram nesse devaneio e colocaram-se debaixo do chapéu de quem se fez seu dono, de quem comprou espaço à mesa do conselho de administração dos clubes pagando com dinheiro dos contribuintes ou de meia dúzia de investidores e de empresários apostados em tirar dividendos e proveitos da gestão dos recursos e da contratação de jogadores. A escola de formação e da valorização dos jovens futebolistas madeirenses foi relegada para segundo plano.
Não nos admiremos, portanto, com esta abnegação, maior entre os mais jovens. Ao contrário dos mais velhos, eles não encontram matrizes nem referências nos clubes da Madeira que lhes façam vibrar como os pais e os avós quando ouviam o relato pela rádio. O União da Madeira é o caso mais paradigmático de como aquilo que era uma instituição desportiva histórica de todos e património dos sócios, pode se auto-destruir ao tornar-se num brinquedo de alguém. Portanto, senhor professor, enquanto os clubes forem tratados como máquinas de soldar passes de jogadores num campo de onze, quais pipetas de ouro importado, vai continuar a encontrar muito "lisboeta" a acenar cachecóis nos estádios da Madeira.