Circulam nas redes sociais e via e-mail relatos que pretendem ser denúncias sobre os privilégios e mordomias de que se fazem rodear os que ocupam lugares de responsabilidade política: desde os menus principescos da Assembleia da República às “alcavalas” remuneratórias sobre os vencimentos base já ouvi de tudo. Dizia o poeta Aleixo, com a sua grande sabedoria, que “para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade”. Uma percentagem significativa desses panfletos é falsa mas lá no meio há algumas verdades que precisam de ser tomadas em conta porque a deliberada mistura de aldrabice sensacionalista com abusos de poder é de uma eficácia extraordinária para perder energias com a primeira e camuflar os segundos, contribuindo para descredibilizar o regime democrático. Da cantina dos deputados não constam caviar e champanhe e o estatuto remuneratório dos deputados está publicado em Diário da República. Ora o que de facto interessa é o que se passa quando os partidos com maioria tomam a máquina do poder. Das nomeações massivas de assessores e chefes de gabinetes entre os filhos dos amigos e os “jotinhas”, das excepções criadas para os comparsas (como aquela que permite a Alberto João Jardim acumular vencimento e pensão), até às adequações das medidas e leis às estratégias dos grande grupos económicos onde têm interesses pessoais (o acionista Cavaco do BPN é apenas um exemplo) passando pelas negociatas que lesam o erário público (como os submarinos e os contratos swap). Isto sim é tudo verdade! Tão verdade que há um pacto oculto de regime entre os três partidos rotativos no poder de que é prova, a descarada promiscuidade com que aparecem associados em negócios, nomeações e providenciais apoios ou silêncios. Embarcar nas mentiras que denigrem o papel dos deputados metendo-os todos no mesmo saco, é promover o descrédito da Democracia de que em alternativa, só conheço o totalitarismo que recuso liminarmente. Centremo-nos na fiscalização da acção dos nossos eleitos, penalizando-os no protesto e no voto. Recusemos a impunidade social de que gozam os infratores no exercício poder e exijamos a acção dos Tribunais. Os políticos não são todos iguais, os políticos são apenas o espelho da sociedade de que fazem parte e que os elege. A Democracia é, de facto, o pior dos sistemas com excepção de todos os outros.

Isabel Cardoso Professora