Já todos vimos os desenhos animados. Elmer Fudd, caçador calvo, raquítico e dislálico, tinha uma entrada característica. Com os dedos encostados aos lábios, advertia: “be vewy vewy quiet, I’m hunting wabbits” (façam muito pouco barulho, estou a caçar coelhos). Esta indiscrição alertava inapelavelmente a presa – Bugs Bunny, cuja orelha intrometida e esperteza garantiam a má-fortuna do seu perseguidor. Reestruturar dívida é um pouco como caçar coelhos. Quanto mais se anuncia, menos se faz. O manifesto dos 70 – um documento assinado por setenta personalidades de diferentes quadrantes políticos, onde aquelas (lá está) se manifestam em nome da reestruturação da dívida portuguesa – parece sofrer desse excesso de inocência. Qualquer espectador atento a Fudd – com a sua boina de pele, o seu casaco camuflado, botas de cano alto e carabina – sabia que ele ia caçar. Qualquer pessoa que olhe para a trajectória do crescimento português, para as taxas de juro, e para a percentagem de dívida em relação ao PIB, percebe que ela se vai renegociar. Dizê-lo ou calá-lo, não altera a situação do caçador e do devedor. Altera é a expectativa do caçado e de quem empresta – e altera-as no sentido de os pôr em fuga. O manifesto não é grave pela ideia, é grave pelo método e tempo. Diz o óbvio, mas di-lo sem conveniência, em matérias onde inconveniência é dano. O que exige é uma reestruturação da dívida “respeitadora da dignidade dos portugueses e mobilizadora dos seus melhores esforços a favor da recuperação da economia e do emprego e do desenvolvimento sustentável com democracia e responsabilidade social”. Bem espremida, a ideia é abater dívida pública, para contrair mais dívida, em melhores condições, para então o País crescer. Regresso ao pré-troika, portanto. Mas por alguma razão o pré-troika nos conduziu à troika. Foi esse modelo de crescimento viciado em crédito que conduziu ao desvirtuamento do ciclo de dívida e crescimento. O manifesto dos 70 não vem para ajudar. Banaliza a assinatura soberana do País, com ex-ministros das Finanças a subscrever a recusa de compromissos assinados pelos próprios. Recomenda a reestruturação de dívida sem referir que essa reestruturação implica mais depositantes portugueses do que capitalistas de risco alemães. Negligencia as descidas das taxas de juro e o aumento das maturidades e limiares de endividamento que entretanto se acordaram, e ignora os estragos para a credibilidade de uma declaração de dependência assinada por arquitectos da nossa democracia. Temos um problema grave, com origens complexas e sistémicas. Uma alquimia entre má governação, indisciplina na entrada na moeda única e embriaguez de crédito que acarretou um crescimento ilusório e dopado. É justo pedir (sonhar?) co-responsabilidade europeia por esses erros, mas isso não nos demite de navegar o mar que existe. Nesse mar, descem os juros da dívida, a Bolsa vai subindo, o PIB cresce, e o emprego aumenta. Não são níveis de antes, mas são os nossos, e é dependendo de nós que vão subir ou descer. Entre desvios, revogações, e desilusões na desilusão, quase tudo mudou. Quase. Na iminência do final do ajustamento e de alguma melhoria, os nossos mais sabedores e experientes continuam a empenhar a sua sabedoria e experiência em assomos de demagogia. Aí, tudo se mantém – manifestamente – igual. Façam muito pouco barulho. Começou a campanha eleitoral.

Pedro Fontes