Foi há quatro anos. Parece ontem, mas foi há quatro anos. E se para o comum dos mortais, a data serve para fazer aquele exercício próprio do ser humano de lembrar onde se estava e contar como foi, para as famílias e amigos dos que sucumbiram à selvática força da natureza, a data não é uma efeméride que se recorda com o chegar do dia no calendário.
É uma tragédia com a qual se tem de viver e acima de tudo sobreviver todos os dias. E eu não sei, felizmente não sei, como se sobrevive a uma coisa destas. Mas impressiono-me. Ainda hoje impressiono-me com a capacidade tremenda deste povo dar a volta e continuar a viver, mesmo com um cheiro a morte e tristeza, que não desaparece com a limpeza do entulho que o mau tempo trouxe.
O 20 de Fevereiro mostrou-me (e creio que a muita gente) as melhores características deste povo, gente da minha terra. Ensinou-me muito sobre nós próprios, coisas que eu até então desconhecia. Uma lição de dor, coragem e sobrevivência.
Mas esta tragédia devia ter ensinado muito mais, mas creio que poucos aprenderam: A nossa pequenez perante uma Natureza mais forte e que sabe ser implacável. E se não faz sentido arranjar culpados para as condições meteorológicas adversas, menos faz ignorarmos o que nos aconteceu e não aprenderemos nada com isso.
Não se pode varrer a dor para debaixo do tapete, com medo de assustar turistas e afugentá-los. Nem se pode limpar tudo e fazer figas para que nunca mais sejamos contemplados com a adversidade e intempérie.
Esta é a nossa História. Quem sobrevive tem mais responsabilidade. Não basta viver, contar como foi, mas manter tudo na mesma. É preciso fazer melhor.