Terminou o mês de Novembro com muitas realizações que colocaram em debate a violência doméstica, o flagelo que atinge, sobretudo, muitos milhares de mulheres da nossa Região e do nosso País.

Das realizações onde participei, todas elas muito participadas e algumas até inovadoras, como por exemplo, o Teatro com os Retratos da Associação “OLHO-TE”, que foram expostos durante vários dias na Avenida Arriaga, chamaram a atenção, de forma singular e colectiva, para a dolorosa realidade que é a violência doméstica em contexto familiar.

Foi a forma de representação “calada” que até hoje mais me impressionou, fazendo-nos lembrar que, no silêncio das vidas de muita gente, o sofrimento é a mais dura realidade e que o único caminho é abrir as portas e as janelas, acender as luzes e gritar, pedindo socorro porque ficar em silêncio pode levar à morte.

Nos últimos 10 anos já foram assassinadas em Portugal 400 mulheres por companheiros ou ex, ou namorados. Na Madeira, embora não sendo uma das Regiões mais afectadas, também já morreram 7 mulheres, todas de forma horrenda. Mesmo este ano, o assassinato brutal duma mulher às mãos do namorado foi descrito em pormenor pela comunicação social.

O pior disto tudo é que ainda se ouvem vozes que arranjam argumentos para tentar desculpar os agressores, tentando justificar o seu acto com erros que as mulheres tenham cometido, como se fosse justificável alguém ter o poder para tirar a vida a outrem, só porque foram cometidos erros. Quem não os comete que atire a primeira pedra.

E se falarmos dos maus tratos físicos ou da violência psicológica, então os números disparam de centenas para milhares e, por vezes, muitas das mulheres vítimas aguentam durante anos a fio estas situações, a maior parte porque tem filhos e não os querem prejudicar, outras porque acham “que sempre foi assim” e aguentam, como as suas familiares aguentaram, e outras há que nem conseguem perceber que estão a ser vítimas de violência psicológica, que as deixa, infelizes, deprimidas e com baixa auto-estima, muitas vezes renunciando a serem felizes.

Há as que conseguem denunciar os agressores, às vezes depois de terem aguentado uma vida inteira, enfrentando por vezes processos violentos de perseguição, de justiça lenta que as levam a desacreditar nas instituições, porque o agressor continua à solta e à sua volta, fazendo-as lembrar todos os dias o seu tormento.

Há as que são afastadas do seu lar e são colocadas nas casas de abrigo, muitas vezes com os seus filhos, ficando o agressor na casa, gozando de um estatuto de liberdade que nunca deveria ter. Aqui a lei tem que evoluir de forma a afastar quem agride e deixar em casa quem sofreu a agressão. Enquanto isto não for feito, eles vão continuar a vangloriar-se e até a levar para casa outra mulher que vai acabar por ser vítima também.

Há as que conseguem dar a volta por cima e são as sobreviventes, muitas vezes com bastante sucesso. Recuperam as suas vidas e conseguem voltar a ser felizes e realizadas. Mas estas ainda são uma minoria, e o ideal é que fossem a maioria.

Muita coisa tem que mudar nas mentalidades, a começar nas famílias, nas escolas, na comunicação social e na sociedade em geral, colocando no centro da acção a tolerância zero à violência doméstica. Precisamos de educar as crianças com uma mentalidade de saber encarar as diferenças entre homens e mulheres num contexto de inclusão e de igualdade e de não discriminação e no respeito em relação aos afectos e ao amor. Ninguém é dono de ninguém. Somos todas(os) iguais nos direitos e nos deveres de cidadania.

Guida Vieira