Já tinha viajado sabendo mais do que fugia do que o que procurava. Quem nunca o fez? Em todas essas ocasiões senti a força de uma evidência: ninguém se despede de si mesmo antes de sair porta fora de mochila às costas ou trolley na mão. Estamos condenados a andar connosco. Parti sem grandes planos. Passaria por Macau, por Hong Kong, talvez desse um salto a Pequim, talvez percorresse parte do Sul do país. Seria a minha introdução à segunda maior economia do mundo. A República Popular da China está a ganhar cada vez mais influência. O que ali se produz tem impacte em qualquer parte. De repente estava eu, jornalista oriunda de um país desiludido com a democracia, com uma taxa de abstenção que já ultrapassa os 60%, entre jovens que se atrevem a enfrentar o poderoso Governo de Pequim, exigindo-lhe um “verdadeiro” sufrágio universal. Não resisti à vontade de testemunhar a História. Tive o privilégio de fazê-lo com um companheiro excepcional: o Luís Simões, que está a fazer uma volta ao mundo em cinco anos e a desenhar os protestos desde de que a campanha de desobediência civil se transformou numa ocupação. Dormi 14 noites numa tenda montada no asfalto, em frente à sede do Governo daquela região administrativa especial, parte deles já ao serviço do jornal Público. Só naquela zona havia mais de mil tendas montadas por democratas. Não cheguei a ver o Grande Buda e o mosteiro de Po Lin na ilha de Lantau, nem os vestígios da velha China na ilha de Cheung Chau, sequer a faixa costeira de Tai Long Wan, mas testei a minha capacidade de adaptação, de resistência, de ir ao encontro do “outro”, assisti a um momento histórico, e fiz amigos de quem me custou separar, apesar da ubiquidade que a tecnologia agora permite. Nunca se viajou tanto. Por tuta e meia se vai do Porto ao Funchal, a Madrid, a Paris ou a Londres. Para qualquer canto do mundo se organizam pacotes voo + estadia, alguns com “tudo incluído”. Pode ser que, no jogo permanente da publicidade e do marketing, tudo se confunda, mas é grande a diferença entre viajar e fazer turismo. O turista quer estar cómodo, descansar, divertir-se. O viajante quer descobrir e descobrir-se, mesmo que isso lhe traga desconforto, estafa, solidão. Viajar nem sempre é fácil, sobretudo quando o caminho é longo, como nota o ilustrador Luís Simões. “Há que pensar que o que se ganha é mais do que o que se perde”, diz ele. A mudança é constante, sabe-se desde Heráclito. A criatura que parte não é a criatura que regressa, mesmo que tenha ficado o tempo todo num resort a tostar ao sol e a empanturrar-se com marisco. O importante mesmo é ir. No fundo, como defende o escritor Paul Theroux, “não sabemos quem somos até sairmos de casa”.

Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público