Nestas últimas semanas temos assistido, um pouco por toda a Região, à cerimónia da “Bênção das Capas” que tradicionalmente é vivida pelos alunos finalistas do Ensino Secundário. Trata-se, sem dúvida, de um hábito, de uma tradição cujo momento em que ocorre aponta para um sentido e significado que importa não menosprezar, nem esquecer. Na verdade, esta realidade insere-se no contexto dos ritos de passagem enquanto cerimoniais que marcam a passagem de uma pessoa (ou de um grupo) de uma situação para outra e se relacionam com a transição para a vida adulta, para a maturidade. Como sabemos, certas etapas da nossa vida, como seres humanos, são solenizadas socialmente por meio de rituais e cerimônias que marcam a passagem de uma pessoa ou grupo de uma fase do ciclo da vida para outra. Assim, a vida corresponde a um processo contínuo e sucessivo de rituais de passagem que se apresentam intrínsecos à própria natureza humana e, por isso, são, na sua maioria, acompanhados de atos especiais que marcam a pessoa, dando condições de transposição, de transição e iniciação de uma nova etapa de vida. Estes rituais distinguem-se de outras atividades de carácter meramente social não só por serem realizados de maneira formal, seguindo padrões estabelecidos pela tradição, mas também, pela sua natureza simbólica e por se realizarem em ocasiões específicas e períodos determinados. Neste caso devemos considerar a Bênção da Capas como um momento de transição para a idade adulta, uma abertura a novas realidades e perceções sobre a sua própria existência, o vivenciar e estabelecer novas relações interpessoais, por meio da interação com novas pessoas e grupos na fase pós-secundária. De facto, o jovem abre-se para um período novo na sua vida (universitária ou profissional), procurando encontrar a definição do seu papel dentro do contexto social no qual está inserido e avançar na construção e consolidação da sua identidade e papel social. Trata-se, neste período de amadurecimento, da busca por uma identidade adulta, que acontece no contexto da relação entre os jovens e a sociedade e que apresenta diferentes formas. Representa, desta forma, um momento essencial de transformação, transição e auto-afirmação pelo qual aquilo que era novo deixa de ser, dando lugar a novas experiências e vivências que vão contribuir para o amadurecimento dos jovens e para a aquisição de valores, atitudes, crenças, vontades e princípios que serão organizados e assumidos por estes jovens e que lhes servirão de alicerces e bases para a consolidação do seu processo de desenvolvimento e maturidade. Trata-se, portanto, de recordar agradecidamente todo o caminho já percorrido, todo o esforço feito, todo o trabalho realizado, todo o mérito alcançado e todos os resultados conseguidos nessa etapa e perspetivar um horizonte de existência onde é possível sonhar, construir um mundo melhor e percorrer caminhos que levam a um futuro digno e feliz. Deste modo, esses jovens que pedem a “Bênção”, são, eles próprios, Bênção para toda a sociedade, sinal de que, pelo seu saber, pelo seu trabalho, pela sua fé, pela sua coragem, pela sua criatividade e pela sua perseverança, serão capazes de levar a força da esperança e a ousadia da caridade ao Mundo e à Humanidade. É bom mesmo que esta “Bênção” lhes fortaleça o coração e a razão para que, diante do horizonte de um País em dificuldade e em crise, seja possível sonhar e construir um Portugal e um mundo melhor e percorrer o caminho da felicidade.

Marco Gomes, Director Pedagógico da APEL