Criticar ou desvalorizar a dor psíquica é amputar em si próprio a possibilidade de ser completo Com base no relatório “Portugal - Saúde Mental em Números 2014”, entristece-me perceber que o país tem vindo a pensar a saúde mental aos círculos, numa lógica de não prioridade. Promessas, aquando do confronto com resultados, já conhecemos muitas, aparente boa vontade, também, mas respostas claras, continuadas no tempo vão aparecendo de forma muito lenta e inconsistente. As razões são muitas e passam por estratégias dos governos que não priorizam nem a prevenção nem o tratamento, e por outras razões mais delicadas, internas ao grupo de técnicos da saúde mental, na ilógica das “guerras de poder”. Entretanto, e apesar das boas intenções, as pessoas vão adoecendo, muitas vezes sozinhas e envergonhadas por não serem capazes de ultrapassar, o que muitos fazem questão de apelidar como “tontices”. Este estigma, que apelida a dor psíquica de “loucura” e deste modo a recoloca numa dimensão de marginalidade, mantem-se por incompetência do sistema de saúde que não facilita a intervenção preventiva. Não digo que não existem projetos e equipas, muitas delas com altos níveis de competência e experiência, mas são insuficientes para as necessidades. Diria mais, na saúde existem ainda muitos técnicos, em diversas áreas, que olham a saúde mental como o parente desalinhado, aquele que integra o sistema e é aceite, desde que não incomode muito. A saúde mental aparece sempre no fim da lista das prioridades. Podem dizer que não, eu sei que sim. Há como uma desvalorização camuflada. É suposto que se assuma como prioridade, mas o olhar de esguelha não permite a coerência necessária. Contudo, observa-se alguma evolução. Na RAM, os cuidados de saúde primários integram equipas de saúde mental, que avaliam e encaminham as pessoas de acordo com as suas necessidades, e psicólogos para dar continuidade aos pedidos de acompanhamento. Deste modo, a comunidade sabe que este serviço existe e cada vez mais o procura, ou diretamente ou por encaminhamento. Desde crianças aos idosos, a mensagem do benefício do acompanhamento psicológico vai ganhado corpo e a vergonha vai dando lugar ao prazer do bem-estar e aos benefícios dos resultados. Por isso a análise do relatório deve servir não para fazer politica mas para analisar o conceito de “saúde mental”. Criticar ou desvalorizar a dor psíquica é amputar em si próprio a possibilidade de ser completo. Quem não a reconhece no outro nunca a irá aceitar em si mesmo. São muitos os benefícios de uma saúde mental acarinhada, para as pessoas, para o sistema de saúde e naturalmente para o sistema em geral. Pessoas mais conscientes de si são pessoas mais felizes e como tal mais produtivas e realizadas. Manuela Parente

Criticar ou desvalorizar a dor psíquica é amputar em si próprio a possibilidade de ser completo

Com base no relatório “Portugal - Saúde Mental em Números 2014”, entristece-me perceber que o país tem vindo a pensar a saúde mental aos círculos, numa lógica de não prioridade. Promessas, aquando do confronto com resultados, já conhecemos muitas, aparente boa vontade, também, mas respostas claras, continuadas no tempo vão aparecendo de forma muito lenta e inconsistente.

As razões são muitas e passam por estratégias dos governos que não priorizam nem a prevenção nem o tratamento, e por outras razões mais delicadas, internas ao grupo de técnicos da saúde mental, na ilógica das “guerras de poder”.

Entretanto, e apesar das boas intenções, as pessoas vão adoecendo, muitas vezes sozinhas e envergonhadas por não serem capazes de ultrapassar, o que muitos fazem questão de apelidar como “tontices”.

Este estigma, que apelida a dor psíquica de “loucura” e deste modo a recoloca numa dimensão de marginalidade, mantem-se por incompetência do sistema de saúde que não facilita a intervenção preventiva. Não digo que não existem projetos e equipas, muitas delas com altos níveis de competência e experiência, mas são insuficientes para as necessidades.

Diria mais, na saúde existem ainda muitos técnicos, em diversas áreas, que olham a saúde mental como o parente desalinhado, aquele que integra o sistema e é aceite, desde que não incomode muito.

A saúde mental aparece sempre no fim da lista das prioridades. Podem dizer que não, eu sei que sim. Há como uma desvalorização camuflada. É suposto que se assuma como prioridade, mas o olhar de esguelha não permite a coerência necessária.

Contudo, observa-se alguma evolução. Na RAM, os cuidados de saúde primários integram equipas de saúde mental, que avaliam e encaminham as pessoas de acordo com as suas necessidades, e psicólogos para dar continuidade aos pedidos de acompanhamento. Deste modo, a comunidade sabe que este serviço existe e cada vez mais o procura, ou diretamente ou por encaminhamento. Desde crianças aos idosos, a mensagem do benefício do acompanhamento psicológico vai ganhado corpo e a vergonha vai dando lugar ao prazer do bem-estar e aos benefícios dos resultados.

Por isso a análise do relatório deve servir não para fazer politica mas para analisar o conceito de “saúde mental”. Criticar ou desvalorizar a dor psíquica é amputar em si próprio a possibilidade de ser completo. Quem não a reconhece no outro nunca a irá aceitar em si mesmo.

São muitos os benefícios de uma saúde mental acarinhada, para as pessoas, para o sistema de saúde e naturalmente para o sistema em geral. Pessoas mais conscientes de si são pessoas mais felizes e como tal mais produtivas e realizadas.

Manuela Parente