A origem líquida de todo o ilhéu marca para sempre a sua identidade; a ilha não se reduz ao espaço sólido; completa-se no mar que consagra esta relação umbilical, numa imagem de aconchego materno, de lar, mas também prisão que sufoca. E o ilhéu, ainda que se maravilhe com a sensação de liberdade que a infinita planície continental transmite, não pode estar muito tempo sem sentir o mar... Durante muito tempo foi o mar que levava e trazia os barcos, que aproximava e afastava os afectos. Foi o mar da emigração, dos barcos para o sonho de uma vida melhor, no Brasil, nas Américas, na Venezuela, na África do Sul; que traria, com sorte, o noivo rico, o bom partido para a filha casadoira da ruralidade indigente, talvez a esperança de futuro nas desejadas cartas de chamada para os irmãos… Foi e é o mar dos grandes transatlânticos de luxo, carregados de turistas, dólares e libras, as moedas da disputa dos miúdos em mergulho no cais de ontem…

Viver numa ilha tem limitações e custos acrescidos, desde logo no exercício do direito à mobilidade. E quem vive na Madeira sabe o preço da insularidade, paga em moeda de isolamento sentido a dobrar no Porto Santo. Só se pode entrar ou sair por mar, ou pelo ar, quando a meteorologia, o rendimento pessoal, a TAP e as dilectas filhas da liberalização, ou as prioridades da empresa concessionária do transporte público permitem, claro! Não é possível fazer-se ao caminho pelo próprio pé, ou ir à boleia, como no espaço continental. De e para o continente, só de avião, agora liberalizado e sujeito às leis de mercado da oferta e da procura, das épocas altas e baixas (?), da maior ou menor atractividade turística, da eterna e insolúvel sazonalidade a que décadas de governo próprio, promessas, propaganda eleitoral e projectos mais olhos que barriga, não conseguiram dar resposta…

Ser ilhéu é uma realidade que só quem diariamente varre a linha aquática do horizonte sente. E às vezes sufoca. Sente-se com a recente suspensão do único transporte aéreo directo entre o Porto Santo e a metrópole. Sentem as famílias madeirenses com filhos a estudar no continente, quando têm de pagar bilhetes de avião entre 400 / 600 Euros, - o preço de resort turístico - mesmo reservando com três meses de antecedência, para viajar na época de Natal, o que não se verificava antes da liberalização. Sente quem desde a primeira hora apontou para a necessidade de se acautelar a situação dos residentes e dos estudantes. Sendo o avião o único meio de transporte para sair ou entrar na ilha, e sendo a mobilidade no todo nacional um direito de cidadania, não pode a vida das pessoas, as suas eventuais urgências de deslocação esperar por épocas baixas para obter melhores preços. À data muitos aplaudiram; verifica-se agora alguma inversão no discurso, embora se procure alijar responsabilidades. É preciso não esquecer que o processo de liberalização da rota para a Madeira foi solicitado, negociado e aplaudido pelas autoridades regionais e o governo nacional! Quem é que saiu a ganhar neste processo? Sabe-se que o Estado, ao pagar só 30 Euros por viagem, poupou muito dinheiro. Os madeirenses é que não ficaram mais bem servidos.

Em termos de transporte marítimo para o continente, a breve alternativa que durante uns anos nos ligou, perdeu-se na bruma… Vive-se agora a situação caricata de se ter finalmente conseguido a necessária convergência de agendas para consagrar em lei a atribuição de um subsídio do Estado às deslocações por barco entre a região e o continente, quando essa ligação acabou. Que defesa se tem feito dos interesses dos madeirenses, em termos de transporte público por mar, à semelhança de outras regiões insulares? Neste particular, os nossos conterrâneos da ilha dourada também terão a sua versão dos factos, que extravasarão o âmbito do recente e polémico cartão residente… A promoção da mobilidade, da sustentabilidade económica, da sobrevivência de frágeis regiões insulares como a nossa, merece argumentação que vá além do raciocínio empresarial “não há gente, não é rentável”! Este é o pensar político que está a aprofundar assimetrias, intensificando desertificação e abandono suicidário de aldeias e montes com o fecho de instituições do Estado, vitais à permanência humana e à coesão nacional, com a retórica da despesa pública, dos custos de interioridade e insularidade…

A discussão nacional da mobilidade dos cidadãos ilhéus fica refém de agendas políticas, de convenientes subterfúgios comunitários e da colagem entre o isolamento insular e o transmontano. Não adianta argumentar que, à parte a neve, um transmontano pode sair da sua região, demandar o resto do continente de carro, autocarro, comboio, motociclo, bicicleta, a cavalo, de jerico, ou até a pé, coisas vedadas aos madeirenses e açorianos. E os bilhetes dos diversos meios de transporte, no caso dos transportes terrestres, custam invariavelmente o mesmo, por cada meio escolhido, independentemente da data, hora, dia, estação do ano, sem essa coisa de época alta ou baixa, pois os quilómetros e o preço só variam se se fôr por estrada nacional, auto-estrada ou via-férrea. Que está para além da retórica entre liberalização ou serviço público de transporte aéreo ou marítimo, a que o princípio da continuidade territorial, inscrito na Constituição, agitado quando convém, mas realidade por cumprir no caso dos portugueses das ilhas, não responde. Parece que a notícia de os Açores estarem em vias de conseguir uma situação mais favorável para os cidadãos residentes, em termos de transporte aéreo liberalizado, fez acordar os umbigos refastelados na zona de conforto da exemplar liberalização aérea madeirense; resta saber se se poderá inverter o processo, com a privatização da TAP no rol de vendas do governo nacional…

Júlia Caré