Como se já não chegasse o País, também a Região está cheia de ruídos onde avultam os da campanha interna do PSD-M e sobre todos um, estrépito, e sem nexo aparente.

Todos sabíamos que a sucessão não ia ser pera doce e que o dono do pomar ia querer assegurar o destino final da colheita. Sem grande esforço, também suspeitávamos que quereria vender a fruta ao preço que mais lhe conviesse. E até, pronto!, estávamos capazes de prever alguma ‘safadeza ou rasteira’ – nada que fosse verdadeiramente novo (e, a acreditar em alguns candidatos, coisa repetida ao longo de eleições, e eleições, e eleições…)

Mas confesso-me surpreendida, os dias têm sido especialmente prolíferos e de oferta variada: insinuações de um partido novo aproveitando famas de outros tempos; traidores até dentro de casa e candidatos ofendidos com os insultos como se não tivessem acolhido (e tido) atitudes iguais durante todos os anos em que, na Madeira, se quis apagar toda e qualquer voz discordante; ameaças de expulsão e de impugnação aprovada em conselho regional; cartas para todos os gostos, a garantir que sai e a avisar que fica, a gritar por unidade e a alertar para a falta dela se outros ficarem.

Ruídos, a encobrir os dramas e os problemas de todos os dias – o aumento do número dos sem-abrigo e das famílias a precisar de socorro; os problemas nas escolas; o desemprego; os medos na Serra d’Água ou em outro local qualquer, sempre que há mau tempo; as incertezas sobre a solidez e correcção das obras da frente mar, do cais e das ribeiras; as explosivas finanças regionais; a situação do hospital e da saúde, que começa a constituir-se como um verdadeiro crime público. Ruídos pelo meio dos quais a governação se evade, se evapora, não existe.

Ruídos, a sustentar quem julga que é só dizer que quer chegar à quinta vigia e já lá está; a disfarçar ‘coligações’ por cartas públicas ou acordos à distância – como se não estivéssemos todos carecas de saber que, quando se quer trabalhar a sério nestas coisas, a discrição é rainha. Ruídos que, ainda assim, não conseguem mascarar a incapacidade política que entende a prisão de Sócrates apenas como uma questão mediática na ordem do dia. Ruídos que não dissimulam a ausência de soluções alternativas, de projectos novos, de propostas diferentes por parte de quem já devia ter em cima da mesa um caminho de futuro para a Madeira, uma estratégia com objectivos motivadores e mobilizadores. Exigia-se urgência porque, não sei se já puseram os pés no chão, podemos ter eleições regionais daqui a 3 ou 4 meses! Entretanto Jardim, ainda que desautorizado todos os dias, menorizado por muitos dos que lhe estão bem próximo e desprezado pela grande maioria, tenta fazer o que sabe: baralhar e dar de novo, sempre em jogadas que transformam o seu ego no centro dos interesses regionais.

Não vejo nestes jogos inocência ou desnorte, desespero ou falta de rumo. Pelo contrário. Assim, de manso, vai distraindo as oposições (que parecem acordar todas as manhãs à espera de novidades vindas da Pena ou de Bruxelas). E mesmo sabendo que o futuro é uma porta já bem fechada, continuará a tecer os nós que lhe permitam assegurar uma corda de salvação.

A menos que… o dr. Jardim nos surpreenda e saia de cena sem fitas, ameaças ou chantagens. E dir-se-á que saiu porque chegou a hora. Saiu porque essa é, também, uma regra do regime democrático. Saiu, respeitando simplesmente aquela ‘coisa estranha’ que é o valor do voto, tenha ele a expressão que tiver. Saiu, como um homem digno. Saiu, como um homem de estado. Saiu porque a Região é mais importante que o resto. E a vida política continuará e outros actores ocuparão o palco, as competências surgirão, um novo governo escolherá outras opções, a Madeira começará um outro caminho. Tudo respeitando as regras da democracia…

Post Scriptum – Estava sozinha em casa quando acabei de escrever o artigo, pelo que não tinha ninguém a quem o ler. Em desespero de causa, recrutei uma vizinha para me ouvir. Pelo canto do olho, ia percebendo a sua aprovação mas, quando cheguei ao último parágrafo, ela começou a olhar-me com um ar espantado. Quando acabei, deu-me uma palmadinha no ombro e virou-me as costas. Fiquei à porta, enquanto ela ia escada acima a murmurar: Coitada, a vizinha passou-se, ainda acredita no Pai Natal!

Violante Saramago Matos