habitar o silêncio

para o Élvio e para a Paula na rua íngreme a entrada da casa era uma porta estreita. um pouco antes da hora os passos de quem chega, conversa, se reencontra, tenta encontrar o seu lugar em cadeira alheia, que range por instantes, e devagar tudo emudece. sob o foco de uma luz nua, branca – em quase cegueira tamanha a claridade – o homem ergue de braços altos um lençol a tapar todo o corpo, na interioridade do seu silêncio e no da sala, a gerar-se, a sua respiração sentida a espaços, ténue. é um ecrã, uma ausência, ainda. recolhida ainda atrás de um anteparo, a mulher é naquele instante sombra de que apenas se revelam, projectados pela luz, gestos firmes, lentos. presença intuída, por vir. depois do pano caído, um, dois corpos, uma, duas vozes. a nu, a largos pulmões. no palco, corpos vozes sangue a pulsar na veias maiores que a casa, maiores que a rua, maiores que a cidade, maiores que as serras. maiores que o tempo. mais que a vida. as suas vozes consentem vir às suas palavras de outros. antigas, sábias; escritas, mudadas; suas, verdade. somadas. do fundo da terra, de oriente a ocidente, nesta ou em qualquer ilha (o mundo é um só território), em canto dança ou murmúrio – ‘eu não sou actriz, sou a vontade de representar’ –, do nascimento à morte. ‘isto não é sujidade, é terra, pois se é dela que vem o que comemos’. e à terra se regressa, mesmo se ‘eu não entendo como é que uma vida acaba sem chegar ao fim’. [destas e de outras palavras se recorda a rapariga, que preferiu não regressar às palavras escritas para que nela permanecesse o ecoar das vozes do homem e da mulher. onde se sentiu. palavra, pertença, terra, silêncio. na sala já vazia, tocando o seu pulso fino e forte, o homem recordou-se de um momento de há anos – quantos nenhum dos dois se lembra – em que a rapariga lhe havia dito que palavras escritas eram pulsação, da aorta ao pulso, ‘aqui’, disse, e as suas veias pulsavam aceleradas. o que a rapariga – porque incapaz – não disse foi que naquele momento (e pelo futuro) o seu pulso tinha sido tomado pela voz e pelo corpo do homem e da mulher em palco. a mulher sorria tímida e atenta.] ecoava silêncio na sala. matéria humana. do espanto, do assombro, da beleza, da dor e da alegria, da palavra e do silêncio, da generosidade de dar a sua por outra voz, de dar a vida por outra vida, de ‘ser outros’ sendo os próprios, a arte. que, disse a mulher, ‘mesmo não sabendo o que é dela, é ela toda’. íntimo, o meu silêncio. maior que eu.

Diana Pimentel