Até a última oportunidade foi desperdiçada e nem a passagem bíblica citando São Mateus salvou o último discurso do presidente do Governo na Assembleia regional. Confesso que estava entre os poucos que esperava que o debate do Orçamento mostraria ténues indícios de um presidente com alguma visão, de um estadista, mesmo que em ponto pequeno, talvez até ensaiando um discurso de democrata, embora carregado de defeitos. Mas não. Jardim voltou a vestir o casaco do velho regedor que só vê até à esquina. E foi de esquina a sua última passagem por aquela casa. Pelo menos como presidente do Governo Regional. Há anos que o regime agonia, que o governo se arrasta. Que cheira a fim de festa, como muito bem me descreveu um dia um dirigente social-democrata. Mas a imagem deixada nesta última semana ultrapassa tudo o que seria de esperar. Na verdade, o que aconteceu foi pouco mais do que uma perda de tempo. Do governo, da oposição e dos cidadãos. Salva-se a formalidade de ter um orçamento aprovado e pouco mais. De resto, assistiu-se a um governo penosamente exposto a tentar colar políticas desgarradas para dar a ideia de alguma coerência a um mandato cheio de nada. E chegou a ser constrangedor ver o grupo parlamentar da maioria dividido em meia dúzia de grupos, ajoujados ao peso de um Orçamento de que quase todos discordam mas que todos ajudaram a aprovar. Mais do que uma semana politicamente perdida, estes dias de pseudo-debates na Assembleia regional ajudam a perceber os anos perdidos na Madeira. Perdidos em políticas desconexas, em projectos desenhados no adro das igrejas, em programas feitos ao som do despique, em planos decididos por cunha partidária e em tantas outras manifestações de improviso primário. Ajudam também a perceber a gritante falta de coerência de quem defende uma coisa e faz exactamente o seu contrário. O resultado desse tempo perdido está à vista. E não foi apenas esta semana. Foram vários debates, muitos anos e ainda mais orçamentos. Vivemos décadas de olhos arregalados para os furados julgando que a luz ao fundo do túnel era o caminho do sucesso. Mas não era. Era apenas a luz ao fundo do túnel e essa só ilumina até ao túnel seguinte. Mesmo numa terra furada por todo o lado, essa luz é manifestamente pouca e faz lembrar a pouca iluminação do Funchal neste Natal branco e deslavado. Quase tão branco e deslavado como pelo menos a segunda metade dos 40 anos de jardinismo.