O frequente e irresponsável recurso à greve que para muitos é um direito constitucional sagrado vem justificando um novo posicionamento deste conceito que mais não significa do que um recurso desequilibrado e desajustado no tempo e na forma. Os trabalhadores da TAP dão, novamente, um triste exemplo, tão inqualificável porque comparável a uma greve de professores em dia de avaliação, dos médicos perante uma lista infindável de doentes em espera ou dos trabalhadores da hotelaria para o fim-do-ano. Absolutamente nada justifica a afirmação de um direito, enquanto tal, quando o exercício do mesmo não respeita a liberdade dos outros nem salvaguarda os direitos fundamentais de toda a população de um país. A greve da TAP para os últimos dias do mês de Dezembro tem, inquestionavelmente, mais um sentido. É a assumida manifestação dos trabalhadores contra a privatização da empresa. É curioso que assim seja mas, lamentavelmente, é compreensível para uma empresa que lida com inúmeros sindicatos e outros tantos grupos de pressão que lutam por tudo menos pelo interesse comum da organização. Não existe outra empresa no país que garanta tantos e tão variados direitos e “borlas” aos seus funcionários e respectivos familiares à custa, natural e exclusivamente, do acionista Estado que mais não é do que o dinheiro de todos nós. Apesar de inadequado, não é esse conjunto de facilidades que impressiona o comum mortal, já habituado e sem capacidade crítica, mas o facto de, mesmo assim, ainda se querer mais sem limite, ao ponto de se prejudicar, deliberadamente, a empresa e fazer diminuir o seu valor junto de potenciais interessados na sua compra. No fundo, trata-se de uma ação nada inteligente, pois se, no imediato, o sabor desta greve pode ser de uma aparente e sádica satisfação, a médio e longo prazo, o que se coloca em causa é a permanência desses mesmos postos de trabalho. Estar contra a privatização é fazer parte de um sistema que envergonha o país, representa um egoísmo único e corporiza um desespero ao vislumbrar-se que no sector privado a vida é diferente, os compromissos são outros e as regalias existem mas têm que, forçosamente, ser equilibradas, sob pena de ser ver o fundo do poço. Neste enquadramento e atendendo ao sector em apreço, impressiona ver tanta determinação em querer, apenas, uma viagem só de ida.

Eduardo Jesus Economista