A vida moderna impõe-nos determinados padrões sociais que, aos poucos, vão-nos acomodando, anestesiando e, quando damos conta, estamos presos a uma porção de interesses dominadores, económicos, políticos, sociais, regras de vida em sociedade, modelos positivamente materialistas, e até rotinas religiosas. Com isso, o ser humano torna-se preso, escravo do modo de vida que, ao invés do fazer crescer, vai, aos poucos, subtraindo a sua liberdade, amortecendo o seu senso crítico, tornando-o genuflexo a um modelo estereotipado, onde a criatura renuncia à sua individualidade, para aderir a um comportamento padrão, onde todos dizem, fazem e pensam a mesma coisa, tudo guiado pelo modelo materialista que, ao invés de dar a vida autêntica, empobreceu-a. Enquanto tivermos, em Portugal, partidários de uma política clientelista, por bancadas, perfilada aos interesses de grupo e cega aos clamores de quem os elegeu, sempre teremos episódios lamentáveis, de corrupção, rapina e indignidade, como os que os noticiários nos têm mostrado nos últimos dias e nos fazem passar por momentos de pesadelo profundo. Para quem acompanha com lucidez crítica o mundo de hoje e sabe ver a realidade não pode aceitar esta insolvência institucional e moral. Como dizia Edgar Morin: “É preciso que o essencial da urgência não prejudique a urgência do essencial.” E, o essencial, neste caso, é refundar a ética democrática. De facto, a falta de ética pode ser encontrada no fim de muitos raciocínios indagadores a respeito da desordem social que há, neste momento, no nosso país. A ética, como ethos (bom comportamento moral vivido à luz do direito material) não é vivida nem buscada e, por configurar-se numa situação de injustiça, não há paz. Na irresponsabilidade criminosa de alguns dos nossos políticos e homens públicos, que negam ao povo assistência médica, saúde, segurança e as mais elementares garantias do cidadão, não há traços notáveis, de quem usando mal (eles, como enriquecem, acham que bem) a liberdade, despreza o mais elementar que é o direito à vida digna. E, comulativamente, os sistemas legislativos e judiciários injustos, que ganham rios de dinheiro, e, aboletados ao alto das suas notáveis posições, não dão a mínima importância para o drama da maioria da população. Se a justiça humana não os atingir, a divina, certamente, os fará pagar um dia… Observando toda esta iniquidade, a gente nota o porquê de tanta crise. Neste contexto, a solidariedade ajuda-nos a ver “o outro” – pessoa, povo ou nação – não como um instrumento de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar quando já não serve mais, mas sim como nosso semelhante, um “auxílio”, que deve tornar-se participante, como nós, do banquete da vida eterna, para o qual todos os homens são igualmente convidados por Deus. Não é que a solidariedade tenha sido substituída por explosão de individualismo, mas sim que a solidariedade deve ser articulada numa base mais contratual, substituindo a resposta mecânica aos problemas sociais que consiste em intensificar as intervenções do Estado por formulações mais flexíveis de colaboração entre o Estado e o mercado, com formas de governo indireto ou promovendo uma cultura de avaliação das politicas publicas. Só a partir de uma sociedade com objetivos sãos é possível eleger, colocar no poder, homens honestos, com objetivos dignos e definidos, voltados à causa do bem comum. Sim, é difícil… dirão. Sim, é difícil, muito difícil, mas não é impossível. É preciso uma visão prática das coisas. Deus quer uma mudança no mundo. A Ele desagrada a violência, a exploração, a exclusão, o enriquecimento ilícito e a corrupção dos homens públicos. Aliás, no jeito que as coisas estão, só medidas radicais – como radical é a mudança do coração humano – podem deter a avalanche que cai sobre nós. O raio que cai do céu, acção transformadora de Deus hoje, é a nossa acção social, a nossa atividade politica, a nossa luta pela justiça e pelos valores morais. Para acabar, transfiro para a política e para a vida em geral, a reflexão poética da utopia de Pablo Neruda: “Quando as cercas caírem no chão, quando as mesas se encherem de pão, eu vou cantar…” Votos de Santo Natal para todos!
Roque Martins