‘Being a man you cannot tell what might befall when tomorrow comes Nor yet how long one who appears blessed will remain that way, So soon our fortunes change even the long-winged fly Turns around less suddenly.’ Simónides Não sei de memória, releio a história num livro antigo (de 1945). Naquelas páginas aprendi que – não me lembro nem quando nem como e sobretudo para quê – que ‘cor’, em latim, quer dizer coração. Há muitos anos, tentei encontrar uma analogia que sossegasse o desconcerto do mundo em que eu estava então submersa. Afinal, antes daquela folha do velho livro perdido na estante, uma cor era uma cor: azul ou verde, branco ou vermelho, uma paleta. Perto daquela descoberta, numa noite de sono entrecortado, notei, ao abrir os olhos, que tinha acabado a emissão da televisão e vi, quieta, a hoje invisível mira técnica. Voltei, então, a pensar na ‘cor’ com o coração perplexo. Diante daquele círculo estranhamente quadriculado reparei no arco de tantas cores de que era feito. O coração continuava enigma. No dia seguinte vi um anúncio de rolos de fotografia a preto e branco; o ‘slogan’ era ‘para mais tarde recordar’. Repeti, para mim, em silêncio: ‘re_cordar’. Lembrei-me de expressões e de palavras parecidas: saber de cor, concordar, discordar. Nada sobre o coração, parecia-me. Era o momento de desfazer o enigma. No dia seguinte procurei e li outros livros para descobrir uma solução: dicionários vários, enciclopédias e o manual de Ciências da Vida. No dicionário etimológico esclareci que a palavra latina ‘cor’ está contida em várias palavras da língua em que nos conhecemos e que nos diz: con_cor_dar acontece quando há corações unidos; dis_cor_dar é estarem afastados um coração de outro; a expressão ‘saber de cor’ diz saber de cor_ação, de memória; ‘cor’ está também incorporada na palavra cor_dial, que nomeia quem é verdadeiro, franco. E está também na palavra cor_agem, porque para os antigos romanos o coração era a sede da coragem. O centro do que nos torna humanos, portanto. Agora quase tudo estava certo. Saber de cor é saber de coração, de memória. Mas como saber o caminho entre o coração e a memória? Para resolver este outro enigma fui ler um outro livro de tempos romanos. Descobri a história que me ensinou o que têm em comum coração e memória. Numa das histórias de Cícero conta-se que Simónides, nascido cerca de 556 a.C, em Ceos (uma ilha grega) havia dito, em casa de Scopas, um poema lírico que escrevera em sua honra em que incluíra uma passagem dedicada a Castor e a Pollux. Pouco depois chamaram Simónides à porta, porque havia dois jovens que o chamavam. Levantou-se, saiu e não viu ninguém. Nesse momento, a sala ruiu e todos os convivas morreram. E, quando os familiares os quiseram sepultar e não os conseguiram reconhecer, Simónides, porque se recordou do lugar em que todos estavam foi capaz de indicar onde estava cada um para que fossem sepultados. Então percebi: o poeta lembrou-se de todos porque os teve diante dos olhos e os levou ao coração, à memória. Na sua ausência real, todos estavam nos seus lugares. Como Simónides, somos todos gregos.
Diana Pimentel