Passei muitos dias, cerca de 12 meses e meio, em visitas e consultas nos Hospitais da Região. Vi e senti muitas coisas que me arrepiaram os cabelos. Sei que ser parente próximo de um doente é diferente do que ser profissional. Compreendo que os/as profissionais precisam de encarar o seu trabalho com despreendimento e não podem levar para casa os problemas das pessoas doentes. Mas vi e assisti a tanta frieza no trato com os/as doentes que me assustaram muito, até porque, como seres humanos que somos, vamos precisar um dia de recorrer a esses serviços.

Disse-me um dia, uma visita ilustre, que o nosso SRS é pobre e a quem é pobre não podemos pedir que tenha mais cultura. Para mim a pobreza nunca foi sinal de falta de calor humano e por isso por mais pobre e carente que seja o nosso SRS não podemos desculpar a frieza perante seres humanos frágeis e perante as suas famílias em desespero.

Quando um/a profissional dá alta a uma pessoa que não tem o mínimo de condições para ir para casa e quando essa alta se repete muitas vezes algo está mal. Há falta de camas dizem. As pessoas não podem estar muito tempo nos hospitais etc… Mas então porque mantêm camas ocupadas com pessoas que deveriam estar em lares? Porque mantêm situações dúbias entre regime hospitalar e regime de lar? E porque mantêm na mesma enfermaria pessoas verdadeiramente doentes com outras estáveis numa situação no mínimo confrangedora e preocupante?

E sobre doentes/internados com várias patologias complicadas, que são acompanhados por vários profissionais dentro do sistema, porque não se encontram estes profissionais periodicamente, para fazer a avaliação da pessoa doente, acontecendo o contrário, andando todos de costas voltadas e são as pessoas doentes que têm que se deslocar de ambulância às consultas, muitas vezes em situações desumanas, a começar pela espera do transporte que os vão levar de volta. Sei que algumas das pessoas doentes, quando não são acompanhadas por familiares, chegam muitas vezes de volta aos hospitais em situações gravíssimas, em termos de higiene e de alimentação.

E a informação aos familiares porque não é assumida de forma mais regular, como uma obrigação do sistema, e não como um favor que se presta nas horas difíceis? E porque mantem o hospital dos Marmeleiros um andar em que os doentes não têm direito a ter um médico fixo a assisti-los, mesmo estando muito doentes? Se é um andar hospitalar porque funciona assim? Por ser mistura de lar? E qual a legalidade desta situação?

Os problemas do SRS começam nestas grandes questões que precisam ser discutidas urgentemente. É verdade que há falta de material que limita o trabalho dos profissionais que diariamente lidam com quem está internado/a. Vi essas dificuldades. E vi muito carinho no trato com essas pessoas. Assisti a muita delicadeza e atenção. Verifiquei que é difícil estar a aguentar a rede em baixo com tantas carências. Há bons profissionais, sensíveis e delicados/as. Vi isso muitas vezes, em particular nos/nas que cuidam durante mais horas das pessoas doentes. Mas também vi frieza e insensibilidade sobretudo daqueles/as profissionais que decidem sobre a vida das pessoas e às vezes quando são chamados a acudir parece que estão a fazer um frete e nem com os familiares falam, como se estes não merecessem ser tratados como gente. Claro que existem exceções, e boas, mas o problema é a forma como o sistema está a funcionar. É aí que as mudanças devem ser introduzidas e na formação também, sim, porque isto de tratar com pessoas exige muita formação e sentido de humanidade que muitas vezes falta.

Sinceramente penso que o problema não é só logístico, mas também, pois algumas instalações são simplesmente assustadoras para quem está doente e para quem visita. Basta ir às urgências ou aos Marmeleiros para ver do que falo. Mas se mudar apenas as instalações mas o sistema continuar frio e errado, no trato de quem dele precisa nas horas mais difíceis da vida, a cara lavada não vai resolver o problema do resto do corpo e é dele que estamos a falar quando se fala no SRS.

Espero que este alerta, fruto da experiência vivida, seja entendido como tal e sirva para ajudar a despertar quem realmente decide sobre a fase mais precária das nossas vidas.

Guida Vieira