Circulo, diariamente, na Avenida do Mar e delicio-me com a beleza arquitectónica e perfeito enquadramento dos edifícios da GNR, Direcção Regional do Comércio e Indústria, Capitania e Alfândega, que julgo terem sido erguidos no tempo do Dr. Fernão de Ornelas. Bem como, com o da Empresa de Electricidade da Madeira, construído posteriormente.

Mas ouso interrogar-me se haverá necessidade ou se fará sentido manter aquelas entidades em todos ou em alguns desses prédios (no da eléctrica madeirense, refiro-me à parte não ocupada pela subestação) na orla marítima da cidade do Funchal.

Se não seria preferível convertê-los em pequenas unidades hoteleiras de 50/60 quartos, city boutique hotels, com os ajustamentos adequados a uma diferente função, preservando, contudo, imaculada a estética das fachadas (e interiores mais nobres).

Sendo o Funchal o principal polo de atracção e de contacto com a história e cultura da região, tendo presente as tendências do turismo, com cada vez maior procura pelos destinos citadinos, por hotéis com storytelling e com carácter, julgo que haverá demanda para aquele tipo de unidades hoteleiras, que diversificará a oferta regional e que satisfará os clientes de um target etário mais jovem e com rendimentos elevados, que hoje buscam além de um confortável alojamento.

As vantagens parecem-me evidentes para o Funchal e Madeira e, por consequência, para os seus residentes. Que em muito extravasam o turismo, senão vejamos, sem qualquer especial hierarquização e sem pretender ser exaustivo:

- Proprietários dos prédios: Pela venda ou arrendamento, através de procedimentos concursais, poderiam almejar a rendimentos imobiliários que ultrapassariam os custos com a deslocalização dos seus serviços para instalações mais modernas e funcionais em outras áreas do Funchal. A exigência de verbas para compor os orçamentos das entidades públicas acabará por desatar os nós burocráticos e desfazer a resistência à mudança...

- Sector imobiliário: A necessidade de espaços para os serviços outrora prestados nos ditos edifícios permitiria ocupar, no Funchal, prédios devolutos, sem perspectivas de alienação ou arrendamento, que são um fardo para os proprietários e para os bancos financiadores.

- Arquitectos: Acolheriam, de bom grado, quase uma mão cheia de projectos aliciantes de reconversão e aproveitamento, num momento em que não abunda trabalho nos ateliers de arquitectura.

- Construção civil: Ultrapassadas as grandes obras, encontrariam nestes projectos um bálsamo para ocupar os seus trabalhadores e rendibilizar os seus equipamentos.

- Câmara Municipal do Funchal: Permitir-lhe-ia arrecadar receitas com impostos municipais e taxas, associadas à transmissão dos imóveis, à sua detenção com valor patrimonial tributário acrescido e ao licenciamento para obras/funcionamento.

- Região Autónoma da Madeira: Possibilitar-lhe-ia a obtenção de maiores receitas de IRC, IRS e IVA, pagas, respectivamente, pelos proprietários dos hotéis, seus colaboradores e clientes. Aumentar-se-ia, de igual modo, as contribuições para a SS devidas pelos proprietários dos hotéis e pelos seus trabalhadores. Com novos empregos, reduzir-se-ia o esforço regional com as prestações sociais.

- Restaurantes: Podendo alguns destes hotéis enveredarem pelo selected services - quer isto dizer que não teriam serviço de comidas, potenciar-se-ia o surgimento, nas cercanias, de estabelecimentos de restauração e o upgrade dos já existentes, para poderem servir uma clientela mais exigente, que pagaria em conformidade.

- Comércio: Os hóspedes destes hotéis procurariam satisfazer as suas necessidades consumistas nas ruas limítrofes, ora pejadas de lojas fechadas ou a passar por grandes dificuldades, que poderiam ter aqui uma oportunidade única de reabilitação e rejuvenescimento.

- Emprego: Criar-se-iam umas largas dezenas de empregos directos e indirectos para os hotéis e, a jusante, outros mais no comércio e na restauração.

- Preservação do património arquitectónico: Com um disciplinado restauro/reconversão, que compatibilize bem a forma existente com a nova função, estar-se-ia a contribuir para impedir a deterioração de bens culturais, objecto do nosso orgulho e do fascínio de quem nos visita.

- Requalificação urbana: Dar-se-ia nova vida e alguma animação a uma zona que, sobretudo à noite, está abandonada e em crescente desertificação.

E desvantagens? A prioiri, apenas os actuais hotéis poderiam “queixar-se”.

Estou convicto que estes produtos seriam complementares e não concorrentes dos existentes. Todavia, se assim não for, sou daqueles que tem por assente que uma sã concorrência traz, sempre, um conjunto de benefícios para os instalados: melhorar o produto e o serviço, estimular a inovação, aprimorar as suas vantagens competitivas, entre outros, para poderem competir e crescer.

O propósito destas linhas não é assumir a paternidade de algo que já foi descoberto e feito em tantos outros locais, nem o reconhecimento pela proposição de uma “espiral virtuosa” que, eventualmente, terá alguns defeitos que, mea culpa, não sou capaz de antever, mas tão somente, sugerir uma ideia que possa, se concretizada, porventura contribuir para tornar o Funchal mais atractivo para quem nos visita e mais aprazível para quem, como eu, aqui vive.

Paulo Prada