Pedro Melvill de Araújo É atribuída a Fernando Pessoa a frase que diz:

“Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria, que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta”.

Não sei se será, nem de Fernando Pessoa, nem verdade, que o silêncio seja uma resposta, muito menos perfeita.

O silêncio, insidiosamente, foi-se instalando nos nossos hábitos, tornando a sociedade numa sociedade acusticamente doente. O silêncio, por definição, é a total ou relativa ausência de sons audíveis, podendo-se também referir à ausência de comunicação e, ainda que por meios diferentes, da fala.

Apesar de serem articulados sons audíveis, estes não têm os significados que querem fazer crer que têm, tornando-se assim numa outra forma de silêncio.

A não resposta, o ignorar quem questiona, quem sugere, quem procura respostas e alternativas é, cada vez mais, hábito enraizado nos hábitos comuns ao mais comum dos portugueses.

O desrespeito, por conveniência ou simples má-educação são sinais (e sintomas) de uma doença cuja etiologia se pode encontrar nos sons dos silêncios.

Muito silêncio se faz ouvir, todos os dias, nas mais variadas ocasiões, ou a propósito das mais variadas ocasiões.

É complicada a semiologia dos silêncios. Sendo a semiologia a ciência que estuda os modos de produção, de funcionamento e recepção dos diferentes sinais de comunicação entre indivíduos ou colectividades, e também a parte da Medicina que estuda os sinais e sintomas das doenças, uma doença que cursa de forma insidiosa, silenciosa na verdadeira acepção da palavra, sem sinais ou sintomas bem definidos, torna-se difícil de interpretar devidamente, com as certezas que a ciência pode trazer.

O silêncio.

São ensurdecedores os sintomas e os sinais dos sons dos silêncios que nos querem fazer sentir diariamente, que levam a que a capacidade auditiva colectiva atinja limiares incomensuravelmente baixos, de difícil terapêutica e recuperação.

Para além da ausência de sons audíveis, há outros silêncios, por vezes bem audíveis, que podem causar estranheza pela ensurdecedora falta de significado.

Estes silêncios, os da fala, bem estudados e aplicados por quem faz deles norma de actuação diária, são resultado, entre outras causas como a gaguez ou a hesitação, de deliberada diminuição no ritmo ou velocidade do discurso com o fim de clarificar processamentos de ideias e ocultar eventuais faltas de significado. Sem significado não há entendimento, sem entendimento não há compreensão, sem compreensão há silêncio.

O silêncio, mesmo que ruidoso é, talvez, uma das maiores doenças da nossa civilização actual.

Silenciam-se, deliberadamente, situações acerca das quais são necessários, indispensáveis mesmo, sons audíveis e perceptíveis.

Silenciam-se atitudes, opções, decisões que a todos, em conjunto e como colectividade que tem de viver sob as mesmas regras dizem respeito, só porque as mesmas decisões, opções e atitudes prejudicam, ou podem prejudicar, uma ínfima parte do conjunto colectivo, a ínfima parte que tem o poder de se fazer ouvir e entender – e que deliberadamente não o faz.

Aqui, a semiologia do entendimento, bem estudada por parte dos que silenciam o que deveria ser audível, leva-nos a diagnosticar doença grave no conjunto de todos os que tendo o dever de se fazer ouvir, não o fazem, porque lhes faltou uma audição perceptível. Tal como doenças mais ou menos comuns, como a hipertensão, que cursam silenciosamente, só se tornando aparente já depois de alguns efeitos menos positivos (a semiologia deste tipo de doenças, as silenciosas, é sempre de difícil interpretação), também o silêncio cultural imposto, porque cursa em silêncio, só se tornará aparente após a doença definitivamente instalada.

A semiologia estuda as causas e os sintomas, mas a cura depende de todos nós querermos e exigirmos que o silêncio (por vezes ensurdecedor) seja banido dos hábitos gemebundos das cadeiras do poder.

Silenciosamente gemebundas é como andam as cadeiras dos poderes, nestes dias, como andam, aliás, gemebundamente silenciosos, os fazedores de opinião, locais e nacionais, ou aqueles que se consideram dessa forma.

E nós, acabamos assim, lamurientos, mas com enorme vontade de escutar e ouvir os sons que os silêncios escondem.