Durante os últimos meses temos ouvido muitos economistas a falar da recuperação económica em Portugal. Uns mais otimistas do que outros, mas quase todos falam no começo do fim da crise, ou no fim do fim, ou no inicio do começo da recuperação. Não fica muito claro em que estado estamos, mas isso também não nos deverá preocupar, porque parece que o que interessa agora é falar na recuperação económica. A ideia do inicio da recuperação já está tão generalizada, que o governo apressou-se a desenhar um orçamento extremamente otimista no que respeita ao cenário macroeconómico subjacente e à consequente arrecadação de impostos. Mas infelizmente nem com um cenário macroeconómico demasiadamente otimista, a nossa economia se demonstra ser capaz de conseguir baixar a dívida. A justificação é simples. O nosso modelo produtivo era e continua a ser inviável. O nosso país continua amarrado a um modelo produtivo que se baseia em salários reduzidos e de baixa qualificação, reforçado durante os últimos anos por uma imposição de um modelo que veio da Alemanha. É preciso ver que temos uma economia pequena, com poucos recursos naturais, e muito dependente das trocas comerciais com outros países. Para superar estas condicionantes, teríamos de nos centrar e investir numa lógica de especialização económica em sectores com grande potencial de crescimento, capazes de competir internacionalmente. Mas foi exatamente o inverso disto que estiveram a fazer durante os anos de austeridade. Em vez de tentar atrair empresas competitivas a nível global, “exportamos” as poucas que resistiam. É por isso fundamental inverter o paradigma atual, uma vez que o nosso modelo tem demonstrado ser incapaz de criar emprego com taxas de crescimento sustentadas e que só apresenta taxas de crescimento positivas em períodos de aumento da dívida pública. Enquanto tivermos uma economia dependente das obras públicas, do turismo e das micro-empresas, não vale muito a pena estarmos empenhados a estudar os dados macroeconómicos e a interpretá-los da forma que nos é mais conveniente, pois uma nova crise financeira poderá ressurgir a qualquer momento. A ideia de que a restruturação da dívida é a solução para alguns dos estados membros, está a tomar cada vez mais força entre Políticos e Economistas Europeus, porque as economias do sul da europa não estão a gerar o suficiente para resolver o problema da dívida. Não estamos longe de ouvir dizer que essa é também a solução para Portugal. Se optarmos por essa falsa solução, voltaríamos a ter problemas com o sector financeiro e sérios problemas no Fundo de Estabilização da Segurança Social, que são os maiores detentores nacionais de dívida pública. Aí entraríamos mais uma vez no inicio de uma nova crise, ou na continuação de uma crise que veio para ficar, enquanto não nos livrarmos deste modelo económico que já deu demasiadas provas de ser inviável e anémico.

Luís Pedro Branco