A. F. «Meu Deus! O que aconteceu? Ele foi detido? Ele continua detido? Mas como? O advogado não conseguiu ainda apontar uma lacuna legal? Este homem não foi o primeiro-ministro? Um dos tipos mais poderosos do país? Como isto tornou-se possível? E eu? Se ele não consegue se safar da justiça, como é que eu vou conseguir? Eu que ando há anos a contornar a lei. O meu ganha-pão são falcatruas. Não tenho milhões como ele. Os meus trambiques são mais modestos. A justiça porém é cega, será que vai por um fim à minha impunidade? Se aquele tipo pode ir dentro, o que me impede de ver o mundo dentro de uma cela? Não devo ser o único a tremer de medo. Os meus sócios também devem estar todos com dores. Será que vão denunciar-me? Será que vão bufar? Portugal já não é o que era. Ganhei a vida com corruptelas, agora como vai ser? Eu cá não posso fugir para Paris! Credo, que medo! Que temor...Se soubesse disto antes nunca me tinha metido no caminho da fraude e da corrupção. Jogava limpo. Não ganhava tanto mas também não estava aqui a suar com medo. Meu Deus, ontem estava no céu. Hoje estou numa república em que a justiça pode funcionar. A ousadia está do lado da lei. O que é que eu agora vou fazer? Se um tubarão que dominou o país não se safa, como é que eu vou conseguir escapar das malhas da justiça?»