Pedro Melvill de Araújo Caro Zé Tuga! Vemos, ouvimos e lemos nas notícias, quase todos os dias - estás preso.

Não se fala de outra coisa:

Estás preso! Em prisão preventiva, assim dizem uns, detido por uns tempos dizem outros, pouco interessas afinal, o resultado é o mesmo. Estás bem lixado. Mas isso já sabes há muito tempo, não é?

É assim, dizem, porque a Justiça funciona, querem-nos fazer crer, a Justiça funciona cá no País (estará, de facto, a Justiça, a funcionar?)

Dizem os entendidos que sim, que funciona, e bradam alto e bom som que assim é que é bom, que a Justiça aplica-se a todos os cidadãos deste País independentemente do credo, cor ou orientação – política ou outra – dizem.

Mas então, já não há atrasos na apreciação dos processos, já não há prescrições, já não há colapso de plataformas informáticas, que foram instaladas para agilizar precisamente as prescrições e os atrasos, já não há falta de pessoal, de instalações condignas por esse País fora?

Afinal já corre tudo sobre rodas!

Quer isto dizer, a Justiça a funcionar, que já temos acesso rápido pronto e eficaz cada vez que precisemos de recorrer a um tribunal? Que não precisamos de esperar anos por decisões que podem afectar o correr de muitas vidas?

Estamos pois de parabéns.

A Justiça funciona, atestam os decisores e comentadores, e ainda bem que funciona, dizem. Salvaguarda o povo das más decisões pessoais desses mesmos decisores quando deixam de ser decisores, dizem.

E todos os outros, nós todos, que não têm o estatuto de decisores, ou de ex-decisores, nem colarinho branco, têm também a Justiça a funcionar? Silêncio! dos que tanto apregoaram o funcionamento da Justiça).

Está preso, Zé!

Estás preso entre duas franjas de Oceano Atlântico a Oeste e Sul e duas franjas de terra espanhola (e bem sabemos que daí nem bom vento nem bom casamento) a Leste e Norte, ou no meio do Atlântico, preventivamente para que não possas dizer livremente de tua justiça à Justiça que dizem estar a funcionar na perfeição.

Estás preso a séculos de atraso, crónico nas mentalidades dos decisores, para quem o continuar do estado da coisa mantêm-te, preventivamente, recluso das suas incúrias.

Estás preso às políticas de adversidade que são impostas precisamente por aqueles a quem compete regular a Justiça à qual recorres em momento de necessidade e que não a deixam funcionar dizendo em casos pontuais que funciona às mil maravilhas.

Estás preso a ti próprio quando declinas a tua (sabemos que a tens) capacidade de revolta quando te sentes espezinhado.

Estás preso a um País que exporta a sabedoria que não utiliza em proveito próprio e de todos os que nele acreditam.

Estás preso, não preventivamente, mas definitivamente, ao País onde livremente escolheste viver e lutar por um futuro risonho para ti, para os teus filhos.

Estás preso, caro Zé Tuga, sem Justiça, mesmo que digam que a Justiça funciona.