São como chapéus. Há muitos. E de todos os tipos ou géneros. Este ano, não sei porquê, alguém me lembrou do Sr. D. Pedro V. Diz-se que, quando atingiu a maioridade e demitiu o Governo, então presidido por Saldanha, terá inventado um neologismo: !”Canalhocracia”! Nem sei porque me recordei disto esta semana. Mas sei que as coisas não vão bem. Começando pelo fim: algo não está bem! La Palisse não diria melhor, bem sei. Mas, com tanta acusação, tão bem publicitada como, às vezes, mal preparada … algo me diz que vamos acabar numa fábula de Esopo. Lembram-se de Pedro, o menino pastor, e o Lobo? Não sei se já repararam mas há entre nós um contentamento descontente cada vez que se acusa mediaticamente alguém. A coisa começa por – não se sabe quem - informar os meios de comunicação social sobre quem, a que horas e onde se vai deter alguém. Monta-se o circo, interroga-se o visado com cortinas entreabertas, cai-se literalmente em cima do advogado ou de uma qualquer tradutora chinesa, passam-se e repassam-se imagens sem qualquer novidade e … pronto. A sentença pública está feita. Gostava que nada disto se passasse no nosso país. Que ninguém ficasse contente com a detenção de um ex-Primeiro Ministro com quem muitos adoravam fazer viagens de estado, de um ex-banqueiro a quem muitos lambiam as botas até há pouco, de um ex-advogado que toca piano, fala francês, colecciona as piores obras dos melhores pintores , enfim... Cuspir para o ar ou contra o vento pode ser perigoso. É que, não há duas sem três e em Portugal já vamos em meia-dúzia: BPN, BPP, BES, face oculta, vistos gold e, agora, Marquês. Ao que dizem as vozes haverá mais nozes!!! Tenho-me manifestado sempre contra a utilização dos meios de comunicação social para glorificar a actuação da dita “ justiça”. Avisar a imprensa que se vai deter alguem apenas para se ter a glória de se saber que a operação aconteceu, condenando-se na praça pública quem deveria ter direito a julgamento é triste. É pior que terceiro mundismo. Não sei quem avisa. Quem avisa deveria ser detido, no aeroporto, no seu gabinete, em casa, onde quer que fosse. Mesmo diante dos filhos. Acho que todos os cidadãos se presumem inocentes. Culpados, à partida, só aqueles que cobardemente “vendem informação em primeira mão a troco da vã glória de se ver vingados”! Não gosto mesmo de Sócrates. Mas a corrupção moral de quem passa a informação deve ser punida enquanto se louva quem detém e julga a canalha corrupta que por aí grassa. Houve mais vida antes de Sócrates. Tales de Mileto, Anaximandro, Heraclito e Zenão são exemplos e precederam-no, tendo-lhe sucedido Platão, Aristóteles e até, como diz um Amigo de Paris, Jorge Jesus. Mas o que é importante é que no final de tudo isto não digamos algo como Taylerand disse, um dia, de um dos Bourbons: “não esqueceu nada, pois não aprendeu nada”. O importante é, mesmo, aprender com os erros. O importante é não fingir que esquecemos e perguntar, com ar sério, o que andavam a fazer os gestores e os accionistas da empresa A ou mesmo da B. Mas a verdade, se calhar, é que não esquecemos porque, ao contrário do que seria nossa obrigação, andamos há nove anos sem saber nada.

António Cunha Vaz