Numa aula de Geografia do ciclo preparatório, há muitos anos, um aluno perguntou ao professor se as pessoas do hemisfério sul viviam de cabeça para baixo. Se a terra é redonda e se a Europa está na parte de cima, quem está no lado de baixo, logicamente, deveria viver de cabeça para baixo. É o que parece à primeira vista. O professor tentou explicar que as posições são relativas: para nós eles estão de cabeça para baixo, mas para eles nós é que estamos ao contrário. Em cada ponto do globo as pessoas têm a sensação que estão direitas em virtude da gravidade do centro da terra. Prova do oposto Da primeira vez que estive no hemisfério sul, Austrália, em passagem para Timor-Leste, recordei aquela aula de Geografia e pude comprovar que, naquele lado do mundo, toda a gente anda com a cabeça para cima! De igual modo, naquelas bandas, ao pensarmos na forma esférica da terra, temos a sensação de que na Europa, afinal, é que todos andam de cabeça para baixo ou, pelo menos, de lado! Mapa ao contrário Então porque é que os mapas colocam sempre o Polo Norte para cima e o Polo Sul para baixo? Na verdade, trata-se de mera convenção. Não há qualquer argumento científico para que seja assim. Os primeiros mapas foram desenhados por pessoas da Europa e do hemisfério norte. Consta, até, que nalguns países (Austrália e Brasil) foram publicados mapas ao contrário, nos quais o Polo Norte é colocado na parte de baixo da terra e o Polo Sul na para de cima do mapa. Curiosidades da Física No hemisfério norte a água desce pelo ralo da pia (ou nas valetas das estradas), em turbilhão, no sentido dos ponteiros do relógio (direita para a esquerda). No hemisfério sul, pelo contrário, a água tem tendência a rodar para o lado oposto. A explicação para este fenómeno foi dada pelo matemático francês Gaspard Gustave de Coriolis (1792-1843). Ele observou que o planeta gira do oeste para o leste, mas a sua velocidade rotacional é mais lenta nas extremidades (polos). Por causa disso, um objeto que se desloca do Polo Sul, em linha reta, para o Equador, ao chegar ali (Equador), como a terra se desloca para a direita, a trajetória do objeto mudou para a esquerda. Se o objeto se desloca do norte para o Equador, pelo contrário, o objeto muda a trajetória para a direita. A mesma tendência ocorre com a água quando escorre para os ralos ou valetas (direita no norte e esquerda no sul), devido à rotação da terra. Tudo é relativo Estes problemas fazem-nos lembrar a teoria da relatividade de Einestein, a qual veio por em causa todas as nossas “certezas”. Afinal, tudo é relativo, até o espaço e o tempo. A este propósito, Einstein disse: “Você compreende a relatividade quando vê que 1 hora com a sua namorada parece 1 minuto, e 1 minuto sentado num formigueiro parece 1 hora.” * Procurador da República

João Luís Gonçalves *