Vivemos uma época de um cinzentismo e drama social que arrepia. São os mais idosos que por falta de dinheiro, têm dificuldade em adquirir os seus medicamentos, são os menos idosos que por razão idêntica, têm dificuldade em sustentar as suas famílias, são os mais jovens que após conclusão dos estudos não vislumbram um futuro estável, quadro este que nos traz à memória Arthur Schopenhauer e a sua frase, “Viver é Sofrer”. E para todos aqueles que sentem a privação no que de mais elementar necessitam, a “actualização” da sua frase, no contexto actual seria “Viver está sendo um Sofrimento”. Como resultado, a solidariedade humana manifesta-se e muitas associações de solidariedade social, através dos seus voluntários, colocam-se no terreno em campanhas de recolha de alimentos. As acções mais visíveis são nas grandes superfícies de venda de alimentos, vulgo híper mercados. Mas como em tantos outros momentos da história, a miséria de uns pode revelar-se o benefício de outros. Dai a pergunta: na actualidade, não seria curial, exigível, que estes grandes híper mercados vendessem os produtos adquiridos pelos seus clientes para doação, a preços inferiores aos praticados? Sabemos que existem custos de armazenagem, manuseamento, encargos de estrutura vários e esses serão admissíveis em compor o preço de venda, mas mais do que isso pode configurar e configurará um aproveitamento da indigência instalada, seja este um acto voluntário ou não. Daqui, desde já convido os responsáveis por estes estabelecimentos a reflectirem sobre o assunto.

Fernando Rodrigues Cooperante da ‘Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero’