
decidido a escrever sobre os vistos 'gold', essa aldrabice legal que a par dos off-shore só existe para beneficiar quem foge aos impostos e à justiça, mas o juiz Carlos Alexandre trocou-me as voltas. Mandou prender José Sócrates e tudo passou para segundo plano. Não é todos os dias que temos um ex-primeiro-ministro detido e isso bate as detenções do director do SEF, do chefe dos Notários e a demissão do ministro Macedo. Sócrates na cadeia ganha de goleada. Não conheço o juiz em causa, apenas sei da fama de incorruptível construída ao longo de vários anos e de processos complicados que dirigiu, mas não duvido que tem de possuir provas mais do que concludentes para ordenar uma detenção destas, no aeroporto, com 'convocatória' às televisões e todo um aparato digno de filme. No momento em que escrevo este texto, não faço a mínima ideia de qual será a sorte imediata do ex-primeiro-ministro, mas acredito que terá de haver um conjunto de acusações muito fortes e receios comprovados de que iria fugir, ou obstruir a investigação, para que tivesse sido preso com tanto aparato. Confesso que considerava José Sócrates um homem inteligente, até esperto, pelo que me custa a perceber que tenha arriscado tanto e até regressado a Portugal, quando há muito era apontado como estando a ser investigado pela polícia. Se ia fugir não vinha para Lisboa, penso eu. Ou vinha... Também sem saber ainda o que irá acontecer, espero que este não seja mais um daqueles exemplos tristes de tortura judicial em que se tornou célebre o Ministério Público. Não se admitem detenções prolongadas de suspeitos e longas horas de interrogatórios, por muito que o povo goste e bata palmas. Isso é tortura e um desrespeito pelos direitos que deveriam ser de todos. De Sócrates, de Valentim Loureiro ou de um qualquer carteirista. A justiça tem a oportunidade de mostrar que funciona, não escolhe alvos e trata todos de forma igual, mas também que perdeu hábitos de 50 anos de ditadura e já considera os suspeitos pessoas. Uma justiça que, como diz o povo, também 'é presa por ter cão e por não ter'. Prender Sócrates na noite de sexta-feira foi visto como um acto político, porque estamos a um ano das eleições. Se fosse mais para a frente, era um acto político, porque era em cima das eleições. Se fosse daqui a um ano, era um acto político, porque tinha esperado pelo fim das eleições, beneficiando uns e prejudicando outros. Para essas asneiras também já não há paciência. … P.S. - Será que o juiz Alexandre não quer vir cá ver o fogo?