O mês de outubro de 2014 fica marcado com a publicação do seguinte estudo, fez-se uma pesquisa no Reino Unido que indica que um em cada 50 pastores e bispos anglicanos acreditam que «Deus é apenas uma construção humana». Dez por cento deles afirmam apenas que «Ninguém pode saber como Deus é». Apenas oito em cada dez acreditam que existe um Deus pessoal e somente três de cada 100 afirmam que realmente há alguma força espiritual em ação. O conteúdo da notícia nada tem de especial, os títulos relativos a ela sim. Por exemplo este título bombástico: «Um a cada 50 pastores anglicanos é ateu, diz pesquisa». Ao ler com mais atenção os dados sobre a pesquisa, dei comigo a pensar, finalmente posso a partir de agora considerar-me graças a Deus sem qualquer sombra de escândalo também «ateu» de um deus ou de deuses que nos impõem e que tanto infernizam a vida por todo lado. Sou ateu de todos os deuses que oprimem o pensamento, a liberdade e a vontade própria. Vamos então ao deus sobre o qual eu também me considero ateu, graças a Deus. Sou descrente de um deus maquina que programou a vida e o mundo para agir em conformidade sem que não pudéssemos saborear a aliciante surpresa que o desenrolar da realidade nos permite contemplar. Não me convence o deus do poder pelo poder, que não tem em conta aquilo que o Papa Francisco tem demonstrado com a ideia da renovação bem vincada, «mais misericórdia menos rigor». Aliás o termo «misericordiar» está bem patente na linguagem do Papa Francisco e é hoje para a Igreja Católica um dos maiores desafios. E sobre o poder, tem denunciado que nenhum clérigo não é mais do que ninguém e nada irrita tanto na linguagem das vocações do que essa ideia de que uns são os chamados, os eleitos de um deus e o resto não teve sorte, ficou de fora... Também não me convence o deus de gravata que encegueira uma grande parte da sociedade com a ilusão de que tudo está bem, de cara lavada e que apregoa que não se engana e que faz campanhas absurdamente gastadores para dizer que há um bando de «profestas da desgraça», «bordas de água» que estão «loucos» e que só querem dizer mal por dizer mal. O cartoon não mente. Está um homem no cesto da gávea na ponta do mastro do barco a vigiar, grita lá do alto «fim da crise à vista», dentro do barco alguém pergunta: «Raios! Mas quem pôs o cego a vigiar?», e outro dá prontamente a reposta: «Os mesmos que puseram os piratas a governar». É nesta fase que estamos. Sou ateu de um deus que permite recordes de pobreza, que fez do nosso país e da nossa região uma população de pedintes. Andamos assim na pedincha, porque os recordes das manias dos governantes têm que ser saciados com recordes de desemprego, com gente sem pão para se alimentar condignamente, sem dinheiro para comprar os remédios para as suas mazelas na falta de saúde e outros, sobretudo, o sangue novo, a terem que emigrar deixando o nosso povo cada vez mais velho, deprimido e sem perspetiva de futuro. Aliás, é este o maior dos nossos problemas a ser bem tratado no futuro, pelos governantes sérios - se ainda os houver, claro! Não creio no deus insensível como é insensível o coração da sociedade que permite a criação de vistos gold e outros mecanismos que revelam o quanto é absurdo o tempo em que vivemos. Recuso um deus que dizem estar no coração de sociedades que perdem avassaladoramente o sentido ético. E por isso, repugna-me solenemente que continuemos a teimar no sistema da «economia que mata» (Papa Francisco), porque, nele é normal a desgraça dos emigrantes clandestinos que chegam à Europa, particularmente, a Lampedusa, e são tratados como criminosos e devolvidos à procedência como se de mercadoria se tratassem. São pessoas que fogem da fome, da doença, da perseguição religiosa, política e de tantas outras misérias que continuam a existir no continente africano. Mas, ao lado há passadeiras vermelhas, vistos gold, para que entrem os ricos, aqueles que acenam com notas, muitas notas em nome do investimento, do emprego e da receita. Sou ateu de todos os deuses que fabricam formas de opressão contra a vida e a dignidade humana.
José Luís Rodrigues