Depois dos dias tumultuosos que se seguiram á evidência do colapso do GES, de tudo quanto o país não necessitava era do terramoto que atingiu o Ministério de Miguel Macedo com um efeito aproximado de um tiro no porta-aviões. Com o que ora sucedeu não ruiu a estrutura do Estado mas é de uma certa forma a credibilidade das instituições que está em causa. E foi esse o sinal que resultou da demissão do Ministro. O que Miguel Macedo pretendeu significar com a sua saída de cena é que a situação em que se viu enredado, por razões que se não afiguram todas elas claras, é que não tinha condições para continuar por maiores que tivessem sido as pressões no sentido de que o fizesse. Um Ministro é responsável pela idoneidade e credibilidade de quem escolhe, pelo que a circunstancia de alguns dos seus escolhidos poderem tornar-se incursos em situações menos claras ao ponto de poderem comprometer a imagem de um Governo constitui, seguramente, uma situação que deve ser-lhe imputável. Macedo teve consciência disso e não transigiu em relação ao pedido de demissão apresentado. Devendo dizer-se que nesse particular fez aquilo que devia fazer e que era expectável que fizesse. Significa o que agora se diz que a situação deve ter-se por esclarecida? De todo que não. O que sucedeu foi suficientemente grave para ter atingido o Estado no seu núcleo duro minando a sua credibilidade bem com a confiança que os cidadãos necessitam de ter nas instituições. Pela primeira vez a figuras de topo da hierarquia do Estado foram aplicadas medidas de coação restritivas da liberdade para que possam aguardem assim o seu julgamento. Isto nunca tinha antes acontecido e a circunstancia de agora ter acontecido significa que a corrupção que mina as entranhas do aparelho do Estado tem vindo a encontrar campo para prosseguir na sua caminhada devastadora. O que é seguramente mau. Poderá dizer-se que um aspecto positivo em todo o caso avulta em tudo isto. Na verdade, a intervenção que se seguiu á identificação do problema radica a ideia de que foram tomadas as medidas necessárias para isolar o problema e extirpar o mal. Os factos tal como se apresentam não consentem, todavia, grandes optimismos. Depois de um episódio que pôs a nu muitas das fragilidades e insuficiências do sistema era necessário que tivessem sido de pronto tomadas medidas susceptíveis de repor a confiança. Mas não foi isso o que foi feito, tendo-se o primeiro ministro limitado a substituir Miguel Macedo por Anabela Rodrigues, professora da Faculdade de Direito de Coimbra e já com um percurso respeitável na estrutura académica. A primeira questão que ocorre suscitar coloca-se desde já: num quadro como este, a simples substituição de um personagem por outro, por mais qualificado que este se mostre, será capaz de operar a restituição ao sistema da credibilidade perdida? E poderá ter a incorporação na estrutura governante de Anabela Rodrigues a virtualidade de contribuir para essa recuperação quando ela nunca teve qualquer experiência na máquina do Estado susceptível de constituir disso garantia? Há que reconhecer que parece muito pouco. Num momento em que a máquina do Estado foi abalada como nunca havia sido antes, com altas figuras da sua hierarquia dirigente a serem atingidas pela desconfiança, afigurava-se oportuno que tivesse ocorrido uma intervenção susceptível de ter ido mais além do que a simples substituição de um ministro por outro. Podendo e devendo dizer-se que Passos Coelho desperdiçou uma boa oportunidade de ter dado um abanão na máquina susceptível de ter conseguido mobilizar algumas expectativas Preferiu antes deixar tudo conforme estava o que se não afigura que seja de bom agouro. E muito menos que possa significar um novo folgo capaz de reduzir os estragos já ocorridos.
Carlos Sequeira