No passado domingo fui, como em todos os domingos, almoçar com a minha mãe. Após o almoço é habitual dar um passeio de carro em que o rádio é um objecto dispensável. A minha mãe conversa e conta tudo o que uma aposentadoria, resultante de quarenta anos de trabalho e dedicação ao Estado, pode proporcionar a um ser humano. Fala das amigas, dos novos projectos, das redes sociais e encontra sempre um espaço para aumentar o ego dos filhos. No passeio, por vezes, o meu olhar cruza-se com uma rapariga de trajes mais curtos que recebe uma crítica severa da minha mãe: “Se fosse minha filha, não saia assim de casa…”. Dou-lhe sempre razão porque ela não teve muito tempo de ser menina. Aos vinte anos, segundo ela, levava dois meninos para a escola naqueles autocarros que choviam dentro. Um pela mão e outro ao colo. O que ia ao colo, carregado pelos seus dóceis braços, falava pouco mas o que ia pela mão deliciava-se com os movimentos estonteantes do bilheteiro a fazer trocos. Ainda falam de dificuldade? Interroga-se a Dona Luísa. Neste mar de interrogações domingueiras o passeio deparou-se-nos uma gigantesca aparição: - A praça do povo. Chegamos à avenida do mar e reparamos numa cidade mais iluminada e resplandecente, um espaço valorizado e digno de receber qualquer pessoa que nos visite. A minha Mãe disse-me que a multidão que decorava e circulava naquele espaço fazia-lhe lembrar o seu passado em que as pessoas, ao domingo, passeavam naquela avenida. Neste aspecto ela teve mais sorte do que eu porque na minha adolescência aquele espaço, da forma que se encontrava, não tinha piada nenhuma. Eu adorei o espaço, felicito aos autores e lutadores para que a Praça do Mar ganhasse forma. Por ser teimoso acho graça na teimosia e em pessoas teimosas. Adoro quando o produto da teimosia é a razão e a concordância de todos. Quando olhei para aquele espaço, senti alegria por ele existir, por ser belo e bonito e pela minha mãe ter saudado de forma tão expressiva. Era evidentemente uma grande mais-valia para a nossa Cidade do Funchal e a minha mãe festejou comigo esta enorme requalificação.
Luís Filipe Santos