Nesta época, dita, pós-moderna, onde nos parecem querer convencer de que tudo é apenas superfície, e de que tudo se equivale a tudo na estagnada horizontalidade de uma monótona paisagem relativista; e numa época onde o próprio pensar em profundidade, a própria filosofia, se reduz, perante o aparente contentamento académico geral, a uma mera hermenêutica, e a uma mera história da filosofia, proponho-vos, mais uma vez em contracorrente, uma breve leitura e meditação em torno dum grande filósofo do século XX, e, talvez, do último dos filósofos originais e completos, que muito me influenciou. Falo-vos de Martin Heidegger, que, radicalmente insatisfeito com os caminhos afunilados das filosofias antropocêntricas dominantes, foi às fontes do pensamento sobre o Ser, aos Pré-Socráticos, mas também ao Taoismo e ao Zen, beber a emergência contínua do Pensar puro com que tentou reconciliar o ser humano com o que lhe é mais próprio e autêntico, sugerindo uma outra maneira de habitar a Terra, um relacionar-se criativo e pacífico com a Natureza, com a ‘Physis’ que se ‘desvela’ plenamente só àqueles que ‘Veem’ o puro acontecer das suas eflorescências de dentro para fora, respeitando o silêncio do mistério intraduzível que reservam na raiz de si. Se com «Ser e Tempo» Heidegger abriu uma grande clareira intelectual no século XX, é nas suas obras tardias, no seu livro sobre a poesia de Holderlin, e na sua obra «Serenidade», nos tempos em que se ‘refugiou’ na sua cabana no seio da Floresta Negra, no Sul da Alemanha, que o filósofo completa o seu «regressar a casa», que deveria ser também o de uma humanidade finalmente liberta das algemas da sua totalitária subjectividade metafísica. A desconstrução do Antropocentrismo, a crítica do domínio do reino produtivista da quantidade e da coisificação, a edificação de uma profunda Filosofia Ambiental e de uma ética do Deixar-Ser, a necessidade de uma Gnose Poética e de uma Tecnosofia… São estes os ecos que ainda emanam da Floresta Negra; são estas as tarefas de futuro e sobrevivência que nos esperam nos séculos XXI e XXII.

Miguel Santos Cooperante da Cooperativa “Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero”