Quando era miúdo, no tempo em que ainda havia tempo para contar histórias, uma delas era a do ladrão mais esperto que distribuía o produto do roubo enquanto roubava aos ladrões estúpidos. Dizia-se que a fórmula de cálculo era simples: “Pataca a mim, pataca a ti, a mim pataca; pataca a mim, pataca a ti, a mim pataca”. E assim ficava o esperto com o dobro dos outros. Lembrei-me deste conto quando soube que se confirmava o plano secretamente promovido pelo PSD e o PS para garantir a regresso das subvenções vitalícias aos políticos. O acordo foi abortado rapidamente, pelo menos para já, mas a intenção ficou. E essa era clarinha: garantir a quem enche a boca para dizer que faz da política serviço público à nação uma, mais uma, condição de excepção perante todos os outros cidadãos contribuintes. É evidente que neste caso não se pode falar de ladrões nem de roubo no sentido restrito das palavras e temos de reconhecer que se vota a mexer em direitos que eram dados por adquiridos. Como tantos outros, que eram adquiridos mas deixaram de o ser. Por isso, neste caso, pode-se dizer que houve uma tentativa de assalto à nossa inteligência. Que houve uns deputados de dois partidos que se julgaram mais espertos que os cidadãos estúpidos que neles votaram. Que forçaram até ao último momento a extorsão de mais um privilégio para eles próprios. E é justo dizer-se que assistimos nesta semana a uma, mais uma, forma baixa de fazer política. É que já não bastam os deputados que legislavam em proveito próprio, nem os governantes que administram o bem público como se fosse a herança da tia, nem os ex-governantes que fazem do poder um trampolim para as grandes empresas. Agora também temos alguns deputados a defender com convicção um direito que não se reconhece aos outros trabalhadores portugueses. Isto, partindo do princípio generoso de que todos os deputados trabalham. E sabemos que não é bem assim. Mais uma vez estamos perante um conjunto de árvores que não pode ser confundido com a floresta. Mas a verdade é que é a floresta que permite o crescimento destas plantas infestantes na política, as mesmas que fazem os portugueses duvidar da bondade do esforço dos políticos sérios, que ainda os há. Cada vez menos, mas há. E até esses acabam por ser arrastados para o lamaçal que apenas aproveita aos velhos do regime, praticamente os mesmos de sempre. Esta historieta de dimensão nacional teve o condão de mostrar, mais uma vez, a diferença entre a Madeira e o resto do país. É que se esta decisão fosse tomada na Madeira e tivesse aplicação apenas na Madeira, não tenho dúvidas de que seria aplicada sem apelo nem agravo. E pior: o resto do País, o mesmo que agora se mostra indignado, estaria a encolher os ombros perante mais uma trapaça regional. “São coisas da Madeira”, diriam eles. Como disseram perante os valores do jackpot, perante o desrespeito pela Assembleia e a oposição, perante o buraco nas contas escondidas, perante tantos outros escândalos. E atenção: entre os que assobiaram para o lado nestes casos estão algumas figuras gradas que insistem na pensão vitalícia para eles mesmos quando muitos dos que votaram neles não têm nem pensão de invalidez, nem de velhice, nem qualquer outro rendimento. Durante os últimos dias, Portugal inteiro esteve prestes a voltar a ouvir aquela indecente e velha matraca: “Pataca a mim, pataca a ti, a mim pataca; pataca a mim, pataca a ti, a mim pataca”.