Quem trata os úteis por tontos trata-os mal e acaba maltratado. Quem trata os tontos por úteis é mais tonto que tais tontos – e inútil.
Os chefes – os tontos e estúpidos – têm a tendência de tratar a generalidade dos colaboradores por tontos, sejam eles úteis ou inúteis. E há-os, de facto, colaboradores e chefes tontos e inúteis.
Tive um chefe que, quando surgia nova matéria orientadora – uma directriz ou um novo diploma – por mais clara, por mais entendível que fosse à primeira, sempre me maçava para maçar alguém no sentido de opinar sobre o óbvio. Mas, pior do que isso, sugeria que eu fizesse perguntas “assim como quem não quer a coisa… assim uma pergunta meia tonta”, como se eu quisesse a coisa ou me prestasse a passar por meio tonto. Claro que eu, levando essa ideia tonta, começava por apresentar a minha interpretação do assunto e clarificava que quem queria a coisa e quem mandava fazer a pergunta meia tonta era o meu chefe. E, assim, quem passava por meio tonto ou tonto era o chefe.
Práticas deste tipo têm muitos “tontos úteis” (às vezes inúteis) que, parecendo que o são, não são aquilo que parecem aos chefes (tontos) que os utilizam como “tontos úteis”, mas estes dão a volta às coisas e deixam, nas mais das vezes, esses chefes de manias tontas como sendo os verdadeiros tontos e inúteis.
Os que gostam de emprenhar pelos ouvidos e utilizam estafetas para minar, confundir, escutar e trazer, também passam mensagens que são levadas pelos mensageiros, que deixam de ser úteis para quem os têm por tontos e passam a muito sabidos e muito úteis a si próprios. Quem são os tontos?
Muitos dos apoiantes dos candidatos à liderança do partido do chefe dos “tontos úteis”, desde os mais chegados a esse chefe até aos «pés de chinelo» e «gente rasca», estão a demonstrar que não são aquilo que parecem, estão a vingar-se de toda a desconsideração de que foram alvos e agora tratam quem os maltratou como tonto e inútil.
O Mundo dá muitas voltas: cai o Bin Laden, cai o Saddam Hussein e cai qualquer ditador. Tanto mais um chefe inferior(izado) dum “povo superior”.
PS: “Estou tonto, tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, ou de ambas as coisas. O que sei é que estou tonto e não sei bem se me devo levantar da cadeira ou como me levantar dela. Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal que vida fiz eu da vida? Nada. Tudo interstícios, tudo aproximações, tudo função do irregular e do absurdo, tudo nada. É por isso que estou tonto...
Agora todas as manhãs me levanto tonto... Sim, verdadeiramente tonto... sem saber em mim e meu nome, sem saber onde estou, sem saber o que fui, sem saber nada. Mas se isto é assim, é assim. Deixo-me estar na cadeira, estou tonto.
Bem, estou tonto. Fico sentado e tonto, sim, tonto, tonto... tonto.” – Fernando Pessoa/Álvaro de Campos.
Eduardo Fonseca