Veremos até quando resistirão à tentação de respeitar uma imprensa livre Pedro Passos Coelho reacendeu, recentemente, a polémica ao chamar “preguiçosos e pouco rigorosos” aos jornalistas, por não veicularem a mesma versão dos factos (no caso concreto sobre o Orçamento do Estado para 2015) que o primeiro-ministro. Inevitavelmente as críticas veladas dos políticos à Imprensa são uma constante em Portugal, com algumas honrosas exceções, ao longo da nossa democracia. Não que os jornalistas devam ser vistos como uma classe privilegiada e imune à crítica. Pelo contrário. Mas por norma os episódios de raiva por parte dos políticos intensificam-se em final de mandato, quando começam a perceber que o poder está a esgotar-se e que cheira a fim de ciclo. Pior, que não têm argumentos sólidos para combater a verdade dos factos. Vai daí apontam a mira aos que fazem a ponte com a população: os mensageiros. Quando os alvos começam a ser os jornalistas – por não vincularem informações “simpáticas” ou por revelarem casos incómodos – isso denota em primeiro lugar uma falha de comunicação dos governantes e, em segundo, falta de cultura plural. Muitos políticos continuam a pensar que a comunicação social é apenas uma simples correia de transmissão de notícias agradáveis. Não gostam mesmo nada quando a Imprensa faz (bem) o seu trabalho e lhes escrutina os passos, lhes desmonta os arranjinhos e descobre buracos financeiros que davam quase para suprimir a pobreza de uma região. Uma verdadeira chatice. Muitas vezes o que acontece – e a Madeira é uma terra pródiga nisso – é que são os jornalistas atentos e profissionais que, por via de recolha de informação e fruto de aturadas investigações, acabam por “borrar a pintura” e estragar os “embrulhos” da classe governante. Se no continente a crítica aos jornais e aos jornalistas é mais seletiva e ocorre, por norma, em períodos pré-eleitorais, na Madeira é o pão nosso de cada dia, como sabemos. O ataque – na maior parte das vezes de baixo nível e sem fundamento - ao jornalismo independente da Região agudizou-se na última década, curiosamente numa época em que começaram a surgir os primeiros sintomas da crise económico-financeira. O problema geracional fomentado ao mais alo nível e controlado pela Quinta Vigia serviu, durante anos, para desviar as atenções dos principais problemas sociais e económicos do arquipélago. Culpabilizar a Imprensa pelos males do país e da região é um ato que assenta nas já conhecidas fantasiosas teorias da cabala e da conspiração. É um princípio perigoso que consubstancia a vontade de domar e dominar a comunicação social. O que, de resto, acontece com o Jornal da Madeira, que apenas veicula notícias benéficas ao regime, polvilhadas por generosas fotos dos protagonistas, a várias colunas. Para o ano existirão novos protagonistas políticos no continente e na Região, a fazer fé nas projeções. Veremos que tipo de comunicação vão privilegiar e até quando resistirão à tentação de respeitar a liberdade de informação e uma imprensa livre e plural. “Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último”, disse Thomas Jefferson, presidente dos Estados Unidos no século XIX… P.S.: A batalha pelo poder no PSD/M parte de uma premissa equívoca e falaciosa. A da certeza de que o próximo líder laranja será o presidente do governo regional, em 2015. Não compreendo tamanho otimismo. O eleitorado mudou. Os que antes não queriam saber, nem sequer queriam ouvir falar, começaram a participar, a se indignarem. A crise e o tempo das “vacas magras” trouxe-nos isso. Senhores candidatos do PSD: a vitória não está assegurada, nem será favas contadas. Roberto Ferreira
Veremos até quando resistirão à tentação de respeitar uma imprensa livre
Pedro Passos Coelho reacendeu, recentemente, a polémica ao chamar “preguiçosos e pouco rigorosos” aos jornalistas, por não veicularem a mesma versão dos factos (no caso concreto sobre o Orçamento do Estado para 2015) que o primeiro-ministro. Inevitavelmente as críticas veladas dos políticos à Imprensa são uma constante em Portugal, com algumas honrosas exceções, ao longo da nossa democracia. Não que os jornalistas devam ser vistos como uma classe privilegiada e imune à crítica. Pelo contrário. Mas por norma os episódios de raiva por parte dos políticos intensificam-se em final de mandato, quando começam a perceber que o poder está a esgotar-se e que cheira a fim de ciclo. Pior, que não têm argumentos sólidos para combater a verdade dos factos. Vai daí apontam a mira aos que fazem a ponte com a população: os mensageiros. Quando os alvos começam a ser os jornalistas – por não vincularem informações “simpáticas” ou por revelarem casos incómodos – isso denota em primeiro lugar uma falha de comunicação dos governantes e, em segundo, falta de cultura plural. Muitos políticos continuam a pensar que a comunicação social é apenas uma simples correia de transmissão de notícias agradáveis. Não gostam mesmo nada quando a Imprensa faz (bem) o seu trabalho e lhes escrutina os passos, lhes desmonta os arranjinhos e descobre buracos financeiros que davam quase para suprimir a pobreza de uma região. Uma verdadeira chatice. Muitas vezes o que acontece – e a Madeira é uma terra pródiga nisso – é que são os jornalistas atentos e profissionais que, por via de recolha de informação e fruto de aturadas investigações, acabam por “borrar a pintura” e estragar os “embrulhos” da classe governante. Se no continente a crítica aos jornais e aos jornalistas é mais seletiva e ocorre, por norma, em períodos pré-eleitorais, na Madeira é o pão nosso de cada dia, como sabemos. O ataque – na maior parte das vezes de baixo nível e sem fundamento - ao jornalismo independente da Região agudizou-se na última década, curiosamente numa época em que começaram a surgir os primeiros sintomas da crise económico-financeira. O problema geracional fomentado ao mais alo nível e controlado pela Quinta Vigia serviu, durante anos, para desviar as atenções dos principais problemas sociais e económicos do arquipélago. Culpabilizar a Imprensa pelos males do país e da região é um ato que assenta nas já conhecidas fantasiosas teorias da cabala e da conspiração. É um princípio perigoso que consubstancia a vontade de domar e dominar a comunicação social. O que, de resto, acontece com o Jornal da Madeira, que apenas veicula notícias benéficas ao regime, polvilhadas por generosas fotos dos protagonistas, a várias colunas. Para o ano existirão novos protagonistas políticos no continente e na Região, a fazer fé nas projeções. Veremos que tipo de comunicação vão privilegiar e até quando resistirão à tentação de respeitar a liberdade de informação e uma imprensa livre e plural. “Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria um instante em preferir o último”, disse Thomas Jefferson, presidente dos Estados Unidos no século XIX… P.S.: A batalha pelo poder no PSD/M parte de uma premissa equívoca e falaciosa. A da certeza de que o próximo líder laranja será o presidente do governo regional, em 2015. Não compreendo tamanho otimismo. O eleitorado mudou. Os que antes não queriam saber, nem sequer queriam ouvir falar, começaram a participar, a se indignarem. A crise e o tempo das “vacas magras” trouxe-nos isso. Senhores candidatos do PSD: a vitória não está assegurada, nem será favas contadas.
Roberto Ferreira